A velhice é bela

A antropologista e escritora Mirian Goldenberg explica como a terceira idade pode ser o ponto alto do sentimento de felicidade e realização pessoal

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A velhice é bela

A antropologista e escritora Mirian Goldenberg explica como a terceira idade pode ser o ponto alto do sentimento de felicidade e realização pessoal

O envelhecimento sempre foi estereotipado como um processo triste. Mas o trabalho da antropóloga e autora de uma série de livros sobre o assunto – entre eles os mais recentes A Invenção de uma Bela ­Velhice e Liberdade, Felicidade & F*da-se – ­Mirian ­Goldenberg pode provar o contrário. Há mais de 20 anos, ela pesquisa a relação de mulheres e homens 60+ com o tema e, desde 2015, foca seu trabalho nos nonagenários. Ao longo desse período e das milhares de histórias que ouviu, Mirian garante que é possível atingir o ápice da felicidade na velhice. Segundo ela, com saúde e estabilidade financeira razoáveis, a terceira idade tem tudo para se tornar o melhor momento da vida de qualquer pessoa. A Revista Home Angels conversou com a especialista. Confira, a seguir, os melhores trechos da entrevista. A visão do processo de envelhecimento muda entre homens e mulheres? Homens e mulheres têm medos e expectativas diferentes em relação ao envelhecimento. Eles têm muito medo da aposentadoria, da impotência e da dependência física. Já elas têm mais medo da invisibilidade social, falta de liberdade e decadência do corpo. Quando envelhecem, no entanto, todos parecem ganhar coisas muito importantes para o resto de suas vidas. Os homens passam a valorizar muito o mundo do afeto, da família, da esposa, dos filhos e dos netos. E as mulheres colocam acima a liberdade que elas conquistam depois dos 50/60 anos e as amizades que firmaram. Envelhecer sempre foi encarado como algo triste. Por que é importante desmistificar essa crença? Cada vez mais os brasileiros vão envelhecer muito. Então, é importante pensar em como as pessoas podem viver com mais liberdade, felicidade e dignidade. Todas as minhas pesquisas mostram que se você tiver uma saúde razoável, dinheiro suficiente para sobreviver e o afeto familiar e dos amigos, a velhice é, para a maior parte das pessoas, o melhor momento de toda a vida. O que eu mais escuto, especialmente de mulheres 60+, é “nunca fui tão feliz, nunca fui tão livre, é a primeira vez que eu posso ser eu mesma”. A velhice não é um momento de tristeza, doença e inutilidade, muito pelo contrário. Por falar em felicidade, o que é a curva da felicidade e como a terceira idade se coloca nesse gráfico? Ela é um gráfico em forma de letra “U” que expõe a realidade de 80 países. Ele mostra que nascemos mais felizes, mas vamos perdendo um pouco de felicidade conforme começamos a nos comparar uns com os outros e a ter responsabilidades e obrigações. Em todos os países, a curva da felicidade chega no ponto mínimo aos 45 anos, em média. Depois disso, ela começa a subir para sempre, porque as pessoas deixam de se comparar e passam a valorizar mais o que elas têm e não o que falta, a aproveitar melhor o tempo e a realizar os seus projetos de vida. Isso tem a ver com a maturidade que se conquista com a idade, certo? Isso. Com a idade se tem mais maturidade e liberdade para ser você mesmo, priorizar seu tempo e parar de desperdiçá-lo com bobagem. Você também deleta da sua vida os vampiros emocionais e passa a dizer não para o que não quer. Começa a valorizar o amor e o afeto que conquistou na vida e a rir mais de si. É lógico que nesse momento de pandemia é mais difícil encarar a vida com bom humor, mas como a minha pesquisa tem mais de 20 anos, eu posso dizer que dar risada, brincar, ser você mesmo e valorizar a amizade são características fundamentais dos velhos que fazem com que eles sejam mais felizes. A pandemia realmente teve um forte impacto sobre a vida das pessoas. Como foi especialmente para os maduros? O maior efeito da pandemia foi no sentido de ter feito com que todas as pessoas, mas principalmente os mais velhos, perdessem o que eles mais valorizam: a liberdade. Os idosos são muito independentes, e esse período fez com que eles se transformassem em prisioneiros dentro de casa. Por outro lado, o que eu vejo de mais bonito nesse sentido é como eles se adaptaram a essa realidade procurando continuar úteis, independentes e ativos. Tudo isso sem sucumbir ao pânico, ao desespero e à depressão. Eles ensinaram como é preciso ter coragem para sobreviver física e emocionalmente a esse momento trágico que estamos vivendo. Além dos pontos que já citou, o que mais é imprescindível para envelhecer feliz e motivado? O principal é ter uma vida com significado. Fazer as coisas que você ama, que você tem paixão, mas que também tenham impacto na vida dos outros. É você se sentir reconhecido, mantendo relações com reciprocidade. Se eu fosse escolher o mais importante, eu diria que é ter uma vida com propósito, humor e muito amor. Você faz um trabalho focado nos nonagenários. Por que eles são grandes exemplos de uma velhice feliz? No grupo que eu estou pesquisando, a maioria tem quase 100 anos. Eles são ativos, lúcidos, alegres, saudáveis e corajosos. Gostam de música, leem muito, acompanham todas as notícias pela televisão e pelos jornais, têm amigos, projetos e ainda cuidam de muita gente. São pessoas que nos ensinam a ter uma bela velhice.