Recomércio em alta

A busca por um consumo mais consciente e a crise econômica, dois fatores potencializados pela pandemia, têm aquecido o mercado de produtos usados

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Recomércio em alta

A busca por um consumo mais consciente e a crise econômica, dois fatores potencializados pela pandemia, têm aquecido o mercado de produtos usados

Cada vez mais pessoas têm pautado suas decisões de compras no efeito ou no impacto do produto no meio ambiente, na saúde e na sociedade. É o chamado consumo consciente (ou responsável), uma tendência que ganhou um impulso ainda maior com a pandemia do novo coronavírus – inclusive por conta da crise financeira que ela provocou – e tem tido reflexos extremamente positivos no recomércio, ou seja, na venda de itens usados. Para se ter uma ideia do tamanho e do potencial desse mercado, pesquisa realizada pela consultoria GlobalData mostra que ele deverá atingir US$ 64 bilhões (aproximadamente R$ 339,8 bilhões na cotação do dólar do dia 13 de maio) até 2024, ultrapassando o segmento de vendas tradicionais. Em se tratando apenas do setor de moda, a edição 2020 do estudo “Os consumidores por trás do crescente mercado de segunda mão da moda”, realizado pela consultoria Boston Consulting Group (BCG) e pela plataforma Vestiaire Collective, indica que o setor de revenda é estimado atualmente entre US$ 30 bilhões (cerca de R$ 159,3 bilhões) e US$ 40 bilhões (R$ 212,4 bilhões), com previsão de crescer de 15% a 20% globalmente nos próximos cinco anos. Para 70% dos entrevistados o caráter sustentável do recomércio, também chamado de recommerce e comércio reverso, é a principal razão para a compra – em 2018, esse índice era de 62%. Mas o aspecto econômico, a variedade de itens e a exclusividade também pesam na decisão. Ainda segundo o levantamento, mirando um pouco mais para frente, em 2023, 27% dos guarda-roupas dos consumidores de produtos de segunda mão serão compostos por itens que já tiveram outros donos. “Há alguns anos temos observado uma mudança importante no comportamento do consumidor. Ele passou a olhar mais para marcas que não visam apenas o lucro. Hoje, há um senso de urgência em formar comunidades mais conscientes do poder e do impacto do consumo”, analisa a especialista em Customer Experience e fundadora da SKS CX Customer Experience Consultancy, Stella Kochen Susskind. Conceito reformulado O conceito de recomércio não chega a ser uma novidade – os tradicionais sebos e brechós estão aí para confirmar. Contudo, a partir da reflexão da população sobre a importância de cultivar novos valores, e também a das empresas de se tornarem social e ambientalmente mais responsáveis, este mercado mudou. Aos poucos, passou a atrair novos apoiadores, inclusive marcas tradicionais (e até de alto luxo), como Gucci e Burberry, que antes não enxergavam potencial no que não é novo. “A entrada delas tem um significado importantíssimo, pois contribui para combater o preconceito em relação a compra de usados”, analisa Stella. Outra grife que aderiu recentemente ao movimento foi a Levis. No final do ano passado, ela lançou nos Estados Unidos a plataforma Levi’s SecondHand, que está associada a um programa de recompra. Com eles, os consumidores têm a opção de adquirir jeans usados ou trocar itens seminovos por pontos, que podem ser revertidos na compra de produtos. No Brasil, algumas iniciativas interessantes também têm surgido. Como a da Marisol S/A. A empresa, fundada em 1964 e que faz parte do franchising desde o ano 2000, apresentou em dezembro de 2020 o projeto Re-conta. Com o lema “roupas paradas não contam histórias”, ele incentiva as pessoas a selecionarem peças usadas das marcas Lilica Ripilica, Tigor T. Tigre e Marisol – mas desde que estejam íntegras, ou seja, sem rasgos, furos e manchas – e trocá-las por créditos (de 30% do seu valor) para serem usados na aquisição de novos itens. Os produtos coletados passam por processo de curadoria da plataforma Enjoei e são colocados à venda em uma loja on-line exclusiva, alimentando, assim, a proposta de economia circular. “O Re-conta tem como objetivo ressignificar o uso e prolongar o tempo de duração das peças, dar mais vida a elas”, explica o presidente da companhia, Giuliano Donini. “Muitas roupas marcam a nossa vida, se tornam parte das nossas lembranças. Com essa ação, queremos criar ciclos de memórias e participar da vida de outras crianças, ao mesmo tempo em que valorizamos o dinheiro do consumidor e nos comprometemos com um mundo mais sustentável”, acrescenta. Por enquanto, o projeto está em fase piloto em três lojas Lilica & Tigor de São Paulo, mas a ideia é expandir para todos os pontos de venda da empresa até o começo de 2022 – são 301, entre franquias, próprios e licenciados, e 4,4 mil multimarcas. E apesar do pouco tempo de execução, Domini se anima com os resultados. “Tivemos aumento de 7,2% no ticket médio e, em dezembro, em apenas dez dias, registramos R$ 22 mil em compras de clientes inativos que voltaram às lojas por conta da sua ativação.” Vantagens para as empresas Segundo Stella, o investimento no recomércio, seja através da venda direta de produtos de segunda mão, da instituição de programas de recompra, da formalização de parceria com plataformas de revenda existentes ou qualquer outra estratégia, é realmente vantajoso para as empresas. “Ele gera movimento, atrai o consumidor, e isso é particularmente importante no período atual, em que as pessoas estão pensando 500 vezes antes de gastar. Também cria uma boa imagem para o negócio, mas isso desde que seja trabalhado de forma genuína e com propósito”, analisa. Pesquisas sobre o tema também comprovam a força das companhias engajadas e que, de alguma forma, praticam a responsabilidade socioambiental. Uma delas é a “Vida Saudável e Sustentável 2020: Um Estudo Global de Percepções do Consumidor”, realizada pelo Instituto Akatu e a GlobeScan. De acordo com os resultados, 44% dos entrevistados recompensaram uma empresa socialmente responsável no último ano e 35% pensaram em fazer isso, mas não concretizaram – na edição anterior, de 2019, esses índices foram de 41% e 34%, respectivamente. Já o levantamento “2021 Global Marketing Trends”, comandado pela Deloitte, aponta que os consumidores têm grandes expectativas em relação às marcas e que, em meio à pandemia da Covid-19, elas aumentaram. Pelos dados coletados, 79% dos participantes relembraram exemplos de empresas que responderam positivamente à crise sanitária para ajudar clientes, funcionários e comunidades. Além disso, um em cada quatro concordou fortemente que essas ações mudaram positivamente a sua percepção em relação à empresa e um em cada cinco ficou fortemente fidelizado por causa delas. Por outro lado, de quatro pessoas, uma abandonou uma marca por perceber uma ação negativa nesse período. “Diante desse novo cenário e desse novo consumidor, os empresários precisam ficar ainda mais atentos. Eles devem focar na experiência de compra, para que ela seja efetiva, ter uma comunicação clara e sempre cumprir o que prometem. A relação entre gestores de marca e clientes precisa estar no centro de um processo estratégico de atendimento e fidelização. O varejo, assim como o mundo, está em profunda transformação, e as relações de consumo demandam um olhar especializado para entender às suas aspirações”, completa Stella. Franquias de brechós em alta A busca por um consumo mais consciente, especialmente entre os jovens que fazem parte das gerações Y (nascidos entre 1980 e 1995) e Z (1996 e 2010), também tem feito o mercado de brechós dar um salto, favorecendo, inclusive, as franquias desse segmento. Caso da Arena Baby. Criada em 2015, a rede contabilizou receita de R$ 4,8 milhões no ano passado – este ano, a projeção é chegar a R$ 15 milhões. Atualmente, a rede conta com 17 unidades, sendo três próprias, e uma plataforma de vendas on-line. Por mês, cada uma fatura em média R$ 60 mil com a venda de roupas, acessórios e brinquedos – cerca de 90% do acervo é formado por peças seminovas e que são entre 30 e 80% mais baratas que nas lojas convencionais. Outra marca que tem tido bons resultados é a Peça Rara. Há 15 anos no mercado, ela entrou para o franchising em 2019 e, este ano, firmou sociedade com a SMZTO, fundo de private equity especializado no sistema. Com 13 operações, seu plano de expansão prevê, até o final do ano, um total de 42 em funcionamento, abrangendo todas as capitais do País. Em 2020, a rede teve faturamento de R$ 18 milhões. A meta, para os próximos meses, é chegar a R$ 50 milhões e, para 2022, a R$ 96 milhões. “Tem havido um aumento significativo na procura por nossos artigos de forma geral, e muito por conta pandemia. Ela fez as pessoas pararem para refletir, repensarem o consumo e sua visão de vida”, aponta a fundadora e CEO Bruna Vasconi. O presidente do Conselho da SMZTO, José Carlos Semenzato, é taxativo sobre o potencial da marca: “O varejo de itens seminovos está em evidência e tem se tornado um dos mais fortes no mundo nos últimos anos. A mudança de comportamento do consumidor tem permitido que ele dedique cada vez mais parte do seu orçamento para compras conscientes e de qualidade. Nesse sentido, a Peça Rara tem se destacado pela base sólida que vem construindo desde sua fundação e tem um grande mercado para explorar. Apostamos que pode se tornar referência em seu setor de atuação”.
  • Dicas para ter uma marca mais sustentável e responsável  – Incentive as compras repetidas: muitas pessoas têm uma necessidade fundamental por compras. Sendo assim, estimule-as a fazerem a reposição sustentável, ou seja, comprar apenas quando o produto que já possuem estiverem totalmente gasto, e não porque desejam coisas novas. E recompense-as por isso.- Ofereça serviços: à medida que o consumo muda, as marcas não podem oferecer apenas produtos, mas também serviços e experiências. Aproveite e ofereça opções que integre a sustentabilidade em suas ofertas de serviços. – Dê visibilidade a suas ações: os clientes estão cada vez mais interessados em produtos sustentáveis e responsáveis. Com isso, torne mais acessível e visível as ações que está realizando. Fonte: Kantar