Franchising fatura R$ 167,187 bilhões em 2020

Receita retoma os patamares de três anos atrás, impactada pela pandemia de coronavírus, políticas de isolamento social e redução do consumo

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Franchising fatura R$ 167,187 bilhões em 2020

Receita retoma os patamares de três anos atrás, impactada pela pandemia de coronavírus, políticas de isolamento social e redução do consumo

Se a metade final da década de 50 ficou conhecida pelo plano de ação “Cinquenta anos em cinco”, que marcou o desenvolvimentismo do Governo Juscelino Kubitschek, 2020 ficou marcado, pelo menos no franchising, como “Três anos em um”; só que para trás. Impactado pela pandemia de Covid-19 – como toda a economia brasileira –, o faturamento do setor alcançou R$ 167,187 bilhões no ano passado, retomando os patamares de 2017, quando o sistema de franchising havia faturado R$ 163,319 bilhões. Em relação à 2019, a queda foi de 10,5%: quase R$ 20 bilhões foram perdidos no setor na comparação dos períodos. Olhando por trimestre, o setor até demonstrou recuperação no terceiro e no quarto trimestres de 2020 – com respectivas altas de 58,6% e de 22,8% no faturamento sobre os trimestres imediatamente anteriores. O desempenho do quarto trimestre de 2020 em relação ao quarto trimestre de 2019 foi apenas 1,8% menor, mas isso não foi o suficiente para zerar as perdas do segundo trimestre do ano passado, quando houve o alastramento da pandemia e as medidas mais duras de isolamento social, com o fechamento de shopping centers e a queda nos índices de confiança do empresário e do consumidor, que, por sua vez, também mudou seus hábitos. Por outro lado, apontou a ABF, a digitalização de processos e serviços, as políticas de auxílio emergencial e o aquecimento da construção civil ajudaram a reduzir as perdas no setor. “O resultado poderia ter sido pior, mas as virtudes do franchising amenizaram a queda. Nós temos, por exemplo, a força do trabalho em rede e uma alta capacidade de negociar com fornecedores e promover ganhos em escala, porém é com muito esforço que o ecossistema do franchising atua para amenizar as perdas e os impactos nos negócios”, disse o presidente da ABF, André Friedheim. Para o presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), Eduardo Terra, no ano passado 41% das famílias brasileiras receberam R$ 881 de auxílio emergencial, em média, por mês. No Norte e no Nordeste, esse porcentual chegou a 60% das famílias, e isso teve um efeito importante para a redução das perdas na economia. Outro fator citado por ele foi a recuperação dos empregos formais, embora tenha havido uma piora no indicador de empregos informais. Redes, unidades e empregos Em número de redes franqueadoras, a queda foi de 8,6% na comparação de 2019 com 2020, totalizando 2.668. “Embora algumas redes de menor porte tenham cessado suas atividades, essa diminuição se deve mais a marcas pequenas que deixaram de franquear ou empresas que planejavam se lançar no setor, mas postergaram seus planos. É importante ressaltar também que tivemos alguns movimentos de fusões e aquisições e que novas marcas continuam a chegar, mostrando a atratividade do mercado nacional”, afirmou o presidente da ABF. Na avaliação do presidente do Grupo Cherto, Marcelo Cherto, uma rede de franquia requer escala. “Já há alguns nos venho falando que temos franqueadoras demais com franqueados de menos. Nos Estados Unidos, mesmo fora da pandemia, tem um número enorme de pequenas franqueadoras que fecham as portas todos os anos. Esses que deixaram de ser franqueadores estão focando na operação que já tem, no modo sobrevivência, buscando investidores, fusão etc.”, disse. Já em unidades, o setor perdeu menos: 2,6%, para 156.798, elevando a média de unidades por rede franqueadora para 58,8: o maior índice da história do franchising. De acordo com a ABF, esse dado corrobora com outra tendência: o crescimento da participação de multifranqueados, seja multiunidades (donos de franquias de uma mesma marca) ou multimarcas (proprietários de operações de diferentes redes). “As franqueadoras americanas têm, em média, 300 franquias por rede, que é o comportamento das nossas cinquenta maiores franqueadoras. Por outro lado, tem rede com cinco ou seis unidades há anos e vai arrastando isso, certamente buscando o sustento de outra forma. Vejo como muito positiva a concentração do mercado de franquias. Redes com mais musculatura são mais preparadas para enfrentar as próximas crises”, afirmou Cherto, em live sobre o desempenho do setor promovida pela ABF no início de março. O índice de abertura de unidades de franquias caiu de 9,2%, em 2019, para 6,6%, em 2020, enquanto o de fechamento de unidades de franquias aumentou de 4,9% para 9,2% na comparação dos períodos. A quantidade de unidades repassadas também apresentou pequena alta, de 2,3% para 2,5%. “De fato, alguns empreendedores não conseguiram atravessar um período tão longo de adversidade, mas notamos um imenso esforço das redes para manter suas operações, negociando ou suspendendo taxas e ajudando os franqueados a buscarem alternativas de redução de custos e faturamento. Em outros casos, o negócio foi repassado a um empresário mais capitalizado, uma opção muito importante para a perpetuação de negócios e empregos. Um acesso a crédito mais facilitado e a melhoria geral do ambiente de negócios nos ajudariam a manter ainda mais unidades e, portanto, a geração de empregos, renda e impostos”, avaliou André Friedheim. Em número de empregos, houve uma redução de quase 100 mil postos de trabalho de 2019 para 2020, para 1.258.884 pessoas trabalhando diretamente no franchising. “Vínhamos em uma trajetória ascendente de contratações, inclusive em virtude da reforma trabalhista, porém, a pandemia da Covid-19 fez com que as redes diminuíssem esse ritmo. Isso mostra a urgência de retomarmos as reformas, principalmente a tributária, e outras medidas de desburocratização do ambiente de negócios”, observou Friedheim. Segmentos Por segmento, os únicos que tiveram crescimento nominal em 2020 sobre 2019 foram Casa e Construção, com 12,8% de alta em faturamento, Saúde Beleza e Bem-estar, com 3,1%, e Comunicação, Informática e Eletrônicos, que ficou praticamente estável, com leve alta de 0,5%. Segundo a ABF, o crescimento expressivo de Casa e Construção deveu-se à permanência das famílias em casa para manter o distanciamento social, o que levou à realização de pequenos reparos, reformas e à maior valorização das residências. A manutenção dos juros básicos da economia e o enquadramento das atividades do setor de construção civil como essenciais também contribuíram para o bom desempenho. Já o segmento de Saúde, Beleza e Bem-estar teria se beneficiado da demanda reprimida e da decisão de parte dos pacientes em aproveitar a quarentena (e o dinheiro não gasto em viagens e lazer) para realizar procedimentos mais invasivos. Os demais segmentos apresentaram queda na receita bruta, principalmente Hotelaria e Turismo, com redução de 49,8%, e Entretenimento e Lazer, com baixa de 29,0%. Considerando o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 4,52% em 2020, todos os segmentos do franchising, exceto Casa e Construção, apuraram queda real de faturamento. Projeções Outro dado apurado pela ABF com 340 redes entrevistadas, entre as mais representativas do setor, é que 64% delas consideram alcançar crescimento superior a 10% este ano, 19% prevem expansão entre 5% e 10% e outras 7% acreditam em alta de até 5%. Para 4%, o faturamento deve ser mantido e 6% preveem queda. As previsões são mais otimistas do que eram em 2019, no entanto a pesquisa foi realizada antes do novo pico de propagação do coronavírus e da entrada, em março, de diversos estados brasileiros na fase emergencial de controle da pandemia. Em se tratando de projeções, a ABF estima que o faturamento do franchising cresça 8% este ano, o número de unidades e de empregos aumentem 5% e o de redes apresente expansão de 2%, beneficiado pelo avanço da vacinação da população e das reformas em discussão no Congresso, especialmente a tributária e a administrativa, a implantação das medidas de ajuste fiscal e o estímulo e a facilitação do acesso ao crédito para as micro e pequenas empresas. Apesar da expansão prevista, a entidade acredita que o setor leve cerca de dois anos para retomar os níveis pré-pandemia. “Vamos sair dessa pandemia com redes mais fortes, mais robustas e mais preparadas. Fora a grande aceleração digital, os varejistas aprenderam que seu maior ativo é o banco de dados do cliente”, pontuou Cherto. “Estou convencido de que vivemos uma era de muita transformação e instabilidade. Quem acha que, quando a pandemia passar, virá um momento de calmaria não entendeu absolutamente nada. É melhor se apaixonar por essa instabilidade do que se apavorar com ela. Fica mais fácil surfar nessa onda”, completou Terra. Internacionalização Do ponto de vista de internacionalização, 163 redes mantiveram operações em 106 países. Os três segmentos com mais marcas fora do Brasil também permaneceram os mesmos: Moda, com 36 redes; Saúde, Beleza e Bem- estar, com 34; e Alimentação, com 27. Estados Unidos, com 61 marcas, Portugal, com 41, e Paraguai, com 36, se mantiveram como principais destinos das marcas brasileiras, apesar da queda no número de marcas nesses locais em relação a 2019. Entre os dez maiores destinos do franchising nacional também aparecem Bolívia (24 redes), Angola e Colômbia (com 16 cada), Argentina e Chile (com 15 cada), Peru (12) e Equador (11). Na contramão da internacionalização, no entanto, houve um enxugamento. O número de marcas estrangeiras operando no Brasil passou de 214, em 2019, para 205 no ano passado. Essas redes são de 30 países. Entre os principais estão Estados Unidos, Portugal, Espanha, Reuno Unido, Argentina, Itália, França, Alemanda, Canadá e Países Baixos. 50 maiores franquias A ABF também divulgou o ranking das 50 maiores marcas de franquias no Brasil em 2020 por número de unidades. Segundo o levantamento, o número de unidades das 50 maiores redes associadas aumentou 5% (em 2019 o aumento foi de 9%). Por outro lado, o número mínimo de unidades diminuiu de 321, em 2019, para 315 em 2020, uma queda de 2%. Sete marcas passaram a integrar esse grupo: Shell Select, Remax, Mercadão dos Óculos, Acquazero, Clube Melissa, Casa do Construtor e Sodiê Doces. Entre as 50 maiores, 37% são do segmento de Alimentação, 19% de Saúde, Beleza e Bem-estar, 11% de Serviços e Outros Negócios, 10% de Serviços Educacionais, 8% de Serviços Automotivos, também 8% de Moda, 4% de Hotelaria e Turismo, 2% de Casa e Construção e 1% de Limpeza e Conservação. Em relação à localização das sedes das franqueadoras do Top 50, 83% estão no Sudeste, 13% no Sul, 3% no Centro-Oeste e 1% no Nordeste. Por Estado, os três que abrigam a maior parte das franqueadoras “50 mais” são: São Paulo, com 69% do total, Paraná e Rio de Janeiro, com 12% cada. O formato preferido das maiores redes franqueadoras é o de lojas (90%). Outros 10% são quiosques, home based e unidades móveis. A pesquisa da ABF também identificou crescimento da participação feminina no cargo de principal executivo das maiores redes: passou de 8 marcas em 2019 para 11 no ano passado. Portanto, 21% dessas redes são comandadas por mulheres. Outro recorte do Ranking das 50 Maiores identificou um aumento na participação de redes com maior maturidade: 37 têm acima de dez anos (ante 30 do levantamento anterior), seis têm entre 9 e 10 anos e quatro entre 7 e 8 anos. Outras cinco tem menos de 6 anos. Das 52 empresas no ranking das 50 Maiores, 43 têm Selo de Excelência em Franchising (SEF), o que representa 82,7% do total. No ano anterior, as redes com excelência operacional perfaziam 75,5% do total. “Os números mostram mais uma vez a resiliência do franchising brasileiro. Mesmo em um cenário tão adverso, as redes mantiveram seus investimentos. Entendo também que, mais do que nunca, ficou clara a importância de diversificar negócios para reduzir riscos e buscar novos mercados. De outro lado, algumas marcas estrangeiras interromperam suas operações no Brasil. No entanto, na maioria dos casos, tratam-se de movimentos pontuais, que podem ser revistos assim que a situação apresentar maior estabilidade”, disse o presidente da ABF. 10 maiores microfranquias Pela primeira vez, a ABF também divulgou o ranking das 10 maiores microfranquias associadas. São elas: Pit Stop Skol, Kumon, Acqio, Ceopag, Ceofood, Maria Brasileira, Touti, Lava e Leva Lavanderia, Solarprime e É Seguro Corretora.