Negócio pronto

O repasse de franquia pode ser muito vantajoso para quem precisa se desfazer da operação, para a franqueadora e, sobretudo, para quem está em busca de empreender

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Negócio pronto

O repasse de franquia pode ser muito vantajoso para quem precisa se desfazer da operação, para a franqueadora e, sobretudo, para quem está em busca de empreender

  Durante muito tempo, o empreendedor Paulo Sergio David Marques, de São Paulo, desejou atuar no franchising, mas a oportunidade certa não aparecia. Em 2016, no entanto, a situação mudou e, em agosto, ele fechou a compra de uma unidade da Olho Vivo Vistorias Automotivas. A inauguração aconteceu em abril do ano seguinte. Apesar de satisfeito com a conquista, os resultados não foram o que esperava e, com a pandemia do novo coronavírus, a situação se agravou. A saída que o empreendedor encontrou foi repassar a franquia. “Tentei de tudo para mantê-la, mas os custos eram muito altos e, quando tivemos de paralisar a operação por conta da Covid-19, não consegui mais segurar”, conta. Tomada a decisão da venda, Marques primeiro procurou a franqueadora. O passo seguinte foi oferecer a unidade para os funcionários, que aceitaram a proposta. “Os negócios de vistoria veicular, no geral, são comandados por vistoriadores, pois eles não precisam contratar pessoal e aí conseguem ter lucro.” Assim como o empreendedor paulista, há muitos outros fraqueados que não conseguem manter suas operações, e por diversas razões. Além da financeira, exacerbada pela pandemia, na lista das mais comuns estão problemas familiares, como separação matrimonial, e de saúde, falecimento, mudança de cidade, rompimento de sociedade, mau desempenho, conflitos com a franqueadora, desejo de mudar de área de atuação e busca de novos desafios na vida profissional. Dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF) mostram que, no ano passado, a taxa de repasse no Brasil ficou em 2,5% – em 2019, havia sido de 2,3%. Essa é uma prática comum no sistema e, inclusive, apoiada pela entidade. “É uma opção muito importante para a perpetuação de negócios e empregos”, afirma o presidente da ABF, André Friedheim. “Sou completamente favorável ao repasse de franquias. É uma maneira de manter a rede viva. A questão é apenas para quem repassar. O franqueador tem que garantir que o repasse seja feito para quem tem condições de conduzir o negócio”, acrescenta o CEO do Grupo Cherto, Marcelo Cherto, um dos principais nomes do setor. Entre as marcas brasileiras que já registraram esse tipo de operação está a Espetto Carioca, de bares e restaurantes. De acordo com seu diretor Comercial, Bruno Gorodicht, em oito anos de funcionamento foram realizados quatro repasses, sendo um durante a pandemia. “Enxergamos a prática com naturalidade, pois negócios podem ter começo, meio e fim, o que não necessariamente é algo ruim. Só é recomendável que o franqueado que deseja vender reflita bastante antes de concretizar a ação e pese todos os lados. E, o que vai comprar, analise de forma criteriosa todos os aspectos financeiros, possíveis débitos, questões jurídicas e também sobre a região da unidade”, diz. Na OdontoCompany, rede de clínicas odontológicas, as trocas de comando também acontecem. “A taxa é menor que 1% ao ano, mas é um evento que faz parte do negócio, pois, por mais que tenhamos testes de aptidão, sempre pode ocorrer de um ou outro não se conectar”, aponta o presidente da empresa, Paulo Zahr. Vantagens do repasse Por mais que seja uma decisão difícil – e até burocrática –, o repasse tem suas vantagens. Para o franqueado que quer ou precisa se desfazer da operação é uma oportunidade para recuperar o capital investido – se não todo, ao menos uma parte dele –, enquanto para a franqueadora é uma forma de evitar o fechamento, salvaguardando unidades em risco. E há benefícios também para o futuro comprador, por exemplo, a possibilidade de ter descontos na hora na compra e a rapidez na operação, já que recebe um negócio pronto e em pleno funcionamento, com uma carteira de clientes já formada. Além disso, pode contar com os colaboradores que já atuavam no local, dispensando treinamento de equipe. “Com a pandemia, muitos franqueados não conseguiram manter suas lojas e o repasse acabou sendo a solução para alguns. E, mesmo na crise, tem gente que tem capital e, com isso, consegue encontrar boas oportunidades, sobretudo porque está pegando o negócio na baixa. Vimos esse movimento acontecer com força no ano passado e certamente será continuado este ano”, indica a sócia do escritório NB Advogados, Marina Nascimbem Bechtejew Richter. A advogada pondera que o valor que será pago na unidade tem muito a ver com o estado em que ela está. “Se não estava faturando muito bem, é provável que o novo comprador a adquira por um preço mais baixo do que se tivesse que montar uma do zero. Porém, se possuía um faturamento alto, seu valor agregado sobe e, neste caso, ele pode até pagar um pouco mais.” E é preciso salientar que, para fazer o repasse, há regras – elas podem ser diferentes para cada franqueadora, mas sempre estarão discriminadas no contrato de franquia. Uma delas, segundo Marina, é que, na maioria das vezes, a responsabilidade de conseguir um novo comprador é do atual franqueado. “A franqueadora pode tentar ajudar, consultando a sua rede e o seu banco de cadastros para ver se há algum interessado. Mas, independentemente da forma como o futuro franqueado venha, ele terá de passar pelo processo seletivo da empresa e só fechará o negócio se for aprovado. Além disso, há contratos em que a preferência na compra da unidade é da franqueadora, então, o franqueado tem de oferecer primeiro para ela. Caso contrário, corre o risco de pagar multa”, explica a sócia do NB Advogados. Em relação ao comprador, a especialista recomenda que, antes de assinar o contrato, ele faça a lição de casa, analisando com cuidado o mercado em que irá atuar e a documentação necessária, a fim de saber a real a situação da unidade que pretende assumir. “Ele precisa estudar os números da loja para ter uma ideia de eventuais passivos que ela possa ter, sejam eles trabalhistas, tributários, com a franqueadora ou fornecedores. Isso evita surpresas lá na frente”, completa.