Inteligência (nada) artificial

No Brasil, 15,3% das médias e grandes empresas já usam esse tipo de tecnologia. Como fica a sua aplicação no franchising?

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Inteligência (nada) artificial

No Brasil, 15,3% das médias e grandes empresas já usam esse tipo de tecnologia. Como fica a sua aplicação no franchising?

Em 2018, a Minds English School, franquia de escolas de inglês, a partir de um projeto do engenheiro e franqueado do Ceará, Vicente Queiroz, desenvolveu o Bloog: um robô com inteligência artificial que responde às dúvidas dos alunos e interage com o professor dentro da sala de aula.
“A rede, desde a sua fundação, sempre trabalhou lado a lado com a tecnologia. Foi a primeira a usar tablet e lousa eletrônica nas aulas. Também implementou um curso parte on-line e parte presencial. Estamos constantemente atentos à inovação, para auxiliar no aprendizado e melhorar a experiência dos nossos alunos, e o robô vem para colaborar nesse sentido”, comenta o diretor da marca Renato Garcia.
Por enquanto, ele está sendo utilizado apenas na unidade de Queiroz, mas o plano da Minds é disponibilizá-lo para toda a rede o mais breve possível. “Ainda não conseguimos devido ao custo necessário para o desenvolvimento. No Ceará, o governo do Estado apoiou o projeto. Agora estamos estudando maneiras de baixar os custos e, assim, poder expandi-lo”, diz o executivo. “E já temos mais um projeto de inteligência artificial engatilhado. Em breve anunciaremos a novidade”, acrescenta.
Assim como a franquia de idiomas, muitas empresas têm apostado alto em IA, componente fundamental da transformação digital vivenciada atualmente e que está cada vez mais presente no cotidiano das sociedades modernas. Dados da consultoria IDC Brasil indicam que 15,3% das médias e grandes empresas no Brasil já contam com esse tipo de tecnologia entre as principais iniciativas, e este percentual deve dobrar nos próximos quatro anos.
As áreas com maior potencial de crescimento estão ligadas ao atendimento a clientes, análise e investigação de fraudes, automação de TI e diagnósticos e tratamentos de saúde. Para 2022, a previsão é que 20% das empresas usem tecnologias de voz para interação com consumidores e, em 2024, interfaces de inteligência artificial e automação de processos devem substituir das interfaces de tela dos aplicativos.
Outros dados impactantes vêm de uma pesquisa realizada pelo McKinsey Global Institute, com o objetivo de simular o impacto da inteligência artificial na economia mundial. O levantamento mostra que, até 2030, 70% das empresas terão adotado ao menos um desses cinco tipos de tecnologia de IA: visão computacional, linguagem natural, assistentes virtuais, automação de processos robóticos e aprendizado de máquina avançado.
O estudo pontua ainda que as empresas que saírem na frente e absorverem por completo as ferramentas de IA nos próximos cinco a sete anos têm o potencial de dobrar seu fluxo de caixa. Enquanto isso, as que ficarem de fora podem vir a experimentar uma redução de aproximadamente 20%.
A cientista de dados e especialista em inteligência artificial e machine learning Mikaeri Ohana diz que essa tecnologia traz inúmeros benefícios para as organizações, nas mais diversas áreas, tendo efeitos também para os profissionais. “Ela é capaz de aumentar a eficiência e a produtividade de processos, tornar mais rápido e veloz o reconhecimento de padrões, além de identificar oportunidades com base em inúmeros dados processados em uma rapidez inimaginável, fornecendo insights valiosos para qualquer negócio. Com isso, permite que o ser humano se dedique a tarefas que exercitem a criatividade e que não sejam mecânicas, mantendo a motivação e engajamento para inovar.”
Para o especialista em Tecnologia e Inovação Arthur Igreja, uma das suas principais vantagens é a capacidade de verificar correlação em variáveis que ninguém ainda encontrou: “isso engloba muito mais do que as correlações estatísticas, como as causas e os efeitos. A IA consegue estressar muitas variáveis em paralelo para encontrar relações causais, bem como tratar volumes de dados que são impossíveis de serem analisados por humanos”.

Uso requer cuidados
Apesar disso tudo, ainda há obstáculos e cuidados que precisam ser tomados na implantação da inteligência artificial, em especial no quesito privacidade. “Com a Lei Geral de Proteção de Dados, devemos nos precaver ainda mais em relação às informações que utilizamos nesse tipo de sistema. Elas precisam ser reguladas e ter a devida autorização de uso fornecida”, pontua Mikaeri.
A especialista complementa que é preciso cautela em relação aos preconceitos que podem estar dentro de sistemas de IA. “As pessoas são as responsáveis pelo treinamento dessa tecnologia. Considerando que cada uma possui sua forma de enxergar o mundo, e que suas experiências e vivências são únicas, é importante que sejam adicionadas informações que caracterizem a população como um todo, não excluindo nenhum grupo, e fazendo jus ao conceito de fairness, que se refere à justiça desses modelos.”
E é diante desse cenário que o mundo começa a debater a necessidade da regulamentação da inteligência artificial. A União Europeia e os Estados Unidos já estão desenvolvendo suas propostas, e o Brasil começa a trilhar o mesmo caminho. Por aqui, no final de 2019, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) lançou a consulta pública da Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial –encerrada no dia 31 de janeiro –, para submeter à contribuição de qualquer cidadão um conjunto de questões que vão direcionar uma política que potencialize os benefícios da IA no País e a solução de problemas concretos.
“Essa discussão é muito importante, e está acontecendo em todos os lugares. O fato é que a IA tem uma série de efeitos não previstos, outros indesejados, e também envolve dilemas éticos e morais. Tudo isso precisa passar por regulamentação. Sem ela, quem tiver alguma vantagem econômica a ser obtida vai fazer sem necessariamente levar isso em conta”, avalia Igreja.
Mikaeri também acha válida essa ponderação: “muitas empresas desejam adotar a IA o quanto antes devido a sua popularidade e presença na mídia. No entanto, é importante saber que, devido ao poder que possui ter responsabilidade em sua adoção é primordial”. Exemplo disso, pondera Mikari, é que sistemas desse tipo não são a prova de erros, e também podem falhar em seus resultados. Segundo ele, a supervisão humana é de extrema importância, a fim de garantir que os resultados estejam corretos e não permitam que problemas graves aconteçam devido a falhas de implementação. “Considerando tais pontos, é de extrema importância que a inteligência artificial e seus riscos e descobertas sejam discutidos”, finaliza.