Economia da longevidade

O jornalista e professor Jorge Felix mostra em recente livro que o envelhecimento da população desenha uma nova geopolítica e explica os conflitos atuais no planeta

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Economia da longevidade

O jornalista e professor Jorge Felix mostra em recente livro que o envelhecimento da população desenha uma nova geopolítica e explica os conflitos atuais no planeta

No Brasil, mais de 28 milhões de pessoas têm 60 anos ou mais, número que representa 13% da população do País. E esse percentual tende a dobrar nas próximas décadas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2043, a entidade estima que ¼ da população deverá estar nessa faixa etária, enquanto a proporção de jovens de até 14 anos será de apenas 16,3%.
O envelhecimento populacional é um fato e essa dinâmica demográfica, inédita na história do capitalismo, está construindo uma nova geopolítica. Para aprofundar o tema, o jornalista e professor de Economia no curso de Gerontologia da Universidade de São Paulo (USP) Jorge Félix lançou o livro Economia da Longevidade – o envelhecimento populacional muito além da previdência (106 Editora).
A Revista Home Angels conversou com o autor para saber como o Brasil lida com essa realidade e quais os desafios do envelhecimento no País. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Como você avalia o envelhecimento populacional no Brasil?
Todo o planeta está envelhecendo. O que diferencia os países é o ritmo. O do Brasil é bastante acelerado, mas aqui a população, a sociedade civil, as empresas e o governo ainda não têm consciência sobre esse envelhecimento. O País ainda não se percebe como uma sociedade envelhecida e isso impede ações promissoras para enfrentar esse desafio. No aspecto macroeconômico, isso é terrível. As medidas adotadas são exatamente opostas àquelas recomendadas para a sociedade envelhecida.

Quais são elas?
Proteção ou regulamentação do trabalho, sendo que o Brasil desregulamentou com a reforma trabalhista, e maior investimento em saúde e educação. O País reduziu o orçamento da saúde e, em educação, temos a universalização na infância, mas não na pré-escola, o momento mais importante para o envelhecimento, de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Reduzimos também investimento em pesquisa, o que é fundamental para enfrentar os novos desafios da dinâmica demográfica.

A ideia geral que o brasileiro tem é a de que tudo será resolvido com a reforma da Previdência e pode-se envelhecer com tranquilidade. Mas não é assim, certo?
Exato. Esse é um dos principais pontos. Criou-se na opinião pública a falsa ideia de que os desafios macroeconômicos do envelhecimento populacional se resumem à questão da reforma da Previdência. É uma visão meramente fiscalista. Boa parte dos economistas pensa assim. Eles não conseguem pensar de uma forma interdisciplinar, não conseguem cruzar megatendências. Por exemplo, o envelhecimento populacional com as mudanças climáticas. Se conseguissem, saberiam, por exemplo, que epidemias como a Covid-19 são previsíveis para os nossos tempos e que a população idosa seria a mais atingida, portanto, os sistemas de saúde precisariam se preparar para doenças crônicas e epidemias. Isso já foi publicado faz tempo nos relatórios de envelhecimento da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Nesse contexto, o que é preciso fazer de fato?
Primeiro a conscientização, como disse no meu primeiro livro Viver Muito, de que o meu bom envelhecimento depende do seu bom envelhecimento. É mais do que uma questão de empatia. É uma questão de alteridade, que é um conceito mais amplo da sociologia. Segundo, enxergar o envelhecimento de maneira interdisciplinar, como faz a Gerontologia. E não cada área do conhecimento na sua casinha, de maneira fragmentada. No Brasil, temos um bom marco legal para a questão do envelhecimento, a Política Nacional do Idoso, Lei 8842/1994, e o Estatuto do Idoso, Lei 10.741/2003, o que precisa é essas leis serem respeitadas. Um dos pontos principais do marco legal é a educação e a difusão do conhecimento sobre o envelhecer. O Brasil não faz isso como deveria. Logo, o eleitor e a população não conseguem cobrar dos candidatos e governantes ações condizentes com a dinâmica demográfica. Pelo contrário, o eleitor se torna aliado de propostas absurdas que em nada ajudam no bem-estar do seu próprio envelhecimento.

Quais os papeis do setor público e do setor privado nisso tudo?
O principal papel do setor público é ele mesmo cumprir as leis que eu citei e, sobretudo, trabalhar em saúde e educação. Cada vez mais a sustentabilidade econômica dependerá do nível educacional, de maneira ampla. Como citei, o bom envelhecimento começa, segundo estudos da OCDE, na fase da pré-infância. Nela, o indivíduo forma sua capacidade cognitiva. Teve boa pré-escola? Muito bem. Não teve? Está comprometido para o resto da vida. E o esforço na educação deve ir até o nível de pós-graduação e pesquisa. O bom envelhecimento depende do nível de pesquisa do País. Tem pesquisa básica forte que possa ser transferida para fomentar a indústria? Ótimo. Não tem? Está condenado à dependência, como mostro no livro Economia da Longevidade. O setor privado precisa ter consciência disso. Ele não terá mão de obra qualificada e possibilidade de participação no comércio internacional se não for assim. E acho que nenhum empresário, em sã consciência, possa acreditar que viverá só do mercado interno.

Além da educação, quais outros fatores influenciam positivamente o envelhecimento?
Saúde. Nessa questão, acredito que a Covid-19 possa ajudar a convencer sobre a importância de um sistema de saúde público. Como diz o Drauzio Varella, “é o SUS ou a barbárie”. A classe média não se convence disso. Acha que está protegida porque tem plano de saúde. A elite acha que está protegida porque pode pegar um avião e se tratar nos Estados Unidos. Não será sempre assim. Temos que ter um SUS que não trabalhe sempre com a demanda reprimida, como é crônico no sistema, por falta de verbas. Em 2019, a saúde perdeu R$ 9 bilhões do orçamento federal e teve corte em verbas de pesquisa em 27,4%. Isso não é ação de um país em ritmo acelerado de envelhecimento.

Hoje, quais os principais desafios da longevidade no Brasil?
No meu livro, tento mostrar, como venho fazendo desde 2007, que um dos desafios maiores, além dos já mencionados, é a indústria. A reindustrialização do País e o que chamei de economia da longevidade (silvereconomy, em inglês) é o que o mundo tem investido. É uma estratégia de política industrial a partir da constatação de que as famílias terão outro perfil. Menos crianças e mais idosos. Logo, a cesta de consumo se altera e o Estado deve direcionar incentivos e investimentos em P&D para esses segmentos emergentes de produtos e serviços para o envelhecimento. Os países ricos estão empenhados nisso, claro, com diferenças entre eles. No Brasil, não há praticamente nada nesse sentido. Existe alguma coisa no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), nas agências de pesquisa etc, mas não é uma ação coordenada como se vê na União Europeia, no Japão, nos Estados Unidos e, agora, na China e na Coréia do Sul. Estamos muito atrasados nisso.

Os países mais ricos também enfrentam desafios nessa área?
Eles vivem os mesmos desafios. No entanto, como mostro no livro, eles estão partindo de outro patamar. Tiveram uma história diferente. Tiveram um Estado de Bem-Estar Social que nós, nos países pobres, nem chegamos perto. Mas também tiveram pressão para a redução de proteção social, de serviços de saúde, de sistemas de previdência etc. Reduziram seu “seguro coletivo”. Isso agora implodiu a capacidade de gestão e tem interferido na manutenção do poder e ameaçado democracias. Tenho certeza que a Covid-19 irá alterar muito o panorama global. Os países ricos vão sofrer pressão popular inédita.

Em relação à economia da longevidade, que acabou criando um novo mercado, com muitos negócios voltados para o público maduro, quais as oportunidades atuais?
Há uma imensidão de produtos e serviços para atender a essa nova demanda das famílias. Não apenas de lançamentos, mas também a adaptação de produtos e indústrias já existentes. Todos os setores serão atingidos. O destaque é como a tecnologia é mediadora de tudo na nossa vida. Também esses produtos têm grande componente tecnológico. É a área da Gerontecnologia.

Como isso afeta o capitalismo?
O domínio de um país sobre essa área, sem dúvida, terá impacto no capitalismo mundial. Isso inclui o domínio sobre big data, por exemplo, do modo de envelhecer, de hábitos, de perfil epidemiológico. Não tenho dúvida de que quem irá sair na liderança da economia da longevidade no futuro próximo é a China. A Covid-19 inaugura o mundo chinês, assim como a II Guerra Mundial inaugurou o mundo norte-americano e a revolução industrial, o britânico.

No livro você fala sobre capitalismo de desconstrução? O que isso significa exatamente?
No fim da II Guerra Mundial, diante da fome e da morte, e de uma Europa completamente destruída, os países aceitaram frear o liberalismo que era hegemônico no mundo desde o advento da Revolução Industrial. Iniciou-se o que o economista Thomas Piketty chamou de “capitalismo de reconstrução”, onde o Estado foi o protagonista na criação de um ambiente econômico regulamentado, e não liberalizado, como antes. A crise de 1929 também teve papel fundamental nisso. A partir dos anos 1980, com as ascensões de Margareth Thatcher e Ronald Reagan ao poder, o mundo entra na nova fase liberal, o neoliberalismo. Chamei essa fase, que ainda estamos vivendo, de “capitalismo de desconstrução”. O objetivo econômico é desconstruir a proteção social criada na fase anterior. Logo, concluo, que só poderia nos levar a novos Hitlers e à morte e à fome da II Guerra. Principalmente, porque o capitalismo de desconstrução quer mercantilizar a saúde, que era tão importante na fase anterior, como mostro no meu livro.

Como fica a relação do idoso com o mercado de trabalho?
Esse é um problema que o capitalismo de desconstrução só tem agravado. Como uma das desconstruções é a proteção trabalhista, estamos fazendo exatamente o oposto do que seria necessário. A empregabilidade do idoso no mundo e no Brasil é baixa. Aliás, a idade de corte nas empresas é de 45 anos. Isso é um padrão global. É bom explicar que, sim, temos mais idosos trabalhando, mas a quantidade é menor do que a procura por emprego desse segmento etário que aumenta muito mais rápido. Só uma regulamentação específica poderia atenuar esse problema. A outra questão é a heterogeneidade. Os idosos de maior qualificação até podem sofrer menos, embora também sofram, com o desemprego. Mas os idosos sem qualificação sofrerão mais com o aumento da automação ou robotização de várias tarefas repetitivas. Essa história de que as empresas precisarão dessa mão de obra com o envelhecimento populacional e que a experiência é fundamental, coisa e tal, não tem base científica. O que as pesquisas provam é exatamente o oposto. Existe um descarte desumano do trabalhador a partir dos 45 anos.

Diante disso tudo, como os mais jovens devem se preparar para o envelhecimento?
Eles devem se preparar desde o nascimento porque, como trabalhamos na Gerontologia, envelhecemos a partir da nossa concepção. O feto também envelhece a cada dia até nascer. Então devem se preparar muito. A melhor forma? Estudar. A educação é fundamental. Devem se conscientizar que não poderão parar nunca de estudar. Devem prever que terão uma vida profissional em Y, ou seja, terão sempre duas profissões ou três, ou quatro, seja paralelamente, ou ao longo da vida. Você vai ser uma coisa até certa idade e depois outra. Ou sua profissão vai passar por transformações e você precisará se adaptar. Isso tudo custa caro. Se reinventar custa caro. Logo, o Estado deve estar presente na formação e requalificação dessa mão de obra, sob pena de criarmos mais desigualdade social.