Tal macro, tal micro

Cresce o número de multifranqueados também entre os microfranqueados. Movimento ajuda a profissionalizar e alavancar pequenos empreendedores do setor

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Tal macro, tal micro

Cresce o número de multifranqueados também entre os microfranqueados. Movimento ajuda a profissionalizar e alavancar pequenos empreendedores do setor

Desde que as microfranquias começaram a explodir no mercado, havia a dúvida de especialistas e até de franqueadoras se esse modelo mais enxuto, que comporta investimentos de até R$ 90 mil, funcionaria de forma tão eficiente como os negócios tradicionais de franquias. Hoje, essa dúvida não só se dissipou por completo, como também os microfranqueados mostraram que ter uma microfranquia é pouco. Para os chamados “multifranqueados de microfranquias”, quanto mais pequenos negócios, melhor.
Segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF), 82% das redes de franquias contavam com ­franqueados multiunidades em 2019 – porcentual que era de 68% apenas dois anos antes. E ainda que esse panorama envolva todos os formatos de negócios do franchising, especialistas consultados avaliam que as microfranquias também seguem a tendência de concentração e contam cada vez mais com franqueados multiunidades.
“Temos observado esse movimento de multifranqueados também no segmento de microfranquias. Na maioria das vezes, o franqueado entra e cresce em pouco tempo. Ao invés de pular para um ‘degrau’ maior, como seria uma unidade ‘normal’, eles buscam abrir outras unidades micro para comprovar a eficiência do negócio, tornando-se mais profissionais, inclusive”, explica a diretora de Relacionamento, Microfranquias e Novos formatos da ABF Adriana Auriemo.

Mais responsabilidade
Apesar de ser um movimento comum e que mostra o crescimento do microfranqueado, abrir mais uma unidade traz consigo também mais responsabilidades e deve ser uma decisão tomada com muito estudo e cautela.
Camila Bendochi, multifranqueada da rede Mr. Kids, voltada ao público infantil, tem seis unidades da marca e já pensa em abrir outras. Ela conta que, antes de abrir a terceira (cada unidade é uma máquina instalada em um ponto ou local diferente), o negócio era pensado para ser considerado uma ‘renda extra’. Porém, a partir da terceira microfranquia, ela decidiu se dedicar com afinco à rede.
“Em breve quero abrir mais uma. É preciso tempo para entender como o negócio funciona e as especificidades de cada ponto. Depois, você vai assimilando e passa a enxergar o todo, além de poder ver na prática como faturar. A escolha dos produtos, por exemplo, tem que ser assertiva. Aos poucos, aprendo a gerenciar melhor as compras para obter mais lucro e, por consequência, abrir outras unidades”, conta a empreendedora.
O exemplo dela é replicado em aproximadamente 70% dos franqueados da Mr. Kids. Ou seja, dois a cada três parceiros da rede possuem duas ou mais unidades. “Eles entendem melhor o processo e tem maior facilidade de relacionamento com o cliente final”, diz o gerente de Expansão da Mr. Kids Rodrigo Loredo.
Já a franquia de roupas TFlow tem 10% de seus franqueados com mais de uma unidade. Enxergando a movimentação de mercado, porém, a rede quer atingir 30% nos próximos anos.
Um dos microfranqueados da marca é Hans Weberling Soares, de Aracaju (SE), que começou com uma unidade cujo modelo de negócio é mais enxuto, barato e dispensa a necessidade de espaço físico. Em poucos meses, ele vislumbrou o crescimento do empreendimento e decidiu apostar em uma loja fixa, aberta recentemente. O trabalho realizado no início, então, mudou.
“Hoje sou responsável pelo controle do estoque, das finanças e da gestão das unidades e dos colaboradores. Realizo visitas periódicas à loja e observo as necessidades de cada uma. Com isso, faturo entre R$ 40 mil a R$ 60 mil por mês”, afirma o franqueado.

Poder de barganha
O poder de negociação é um dos diferenciais positivos em se ter mais de uma unidade de franquia, mesmo sendo micro. Vinicius Ferreira Silva, que tem três espaços da rede My Cookies no interior de São Paulo, conta que ao ter várias unidades fica mais fácil negociar com fornecedores, mesmo homologados pela franqueadora.
“O trabalho em rede facilita as coisas. Um exemplo é que, por vezes, realizo compras compartilhadas com outros franqueados, e assim ganhamos juntos”, comenta. Tal como outros exemplos citados nesta reportagem, ao ter mais de uma unidade Vinicius teve de passar a se dedicar totalmente aos empreendimentos. “Tudo se multiplica e exige muita atenção e coerência nas decisões, a fim de que nada saia do eixo”, complementa.
Com o desejo de aliar o trabalho e os cuidados com o lar, a ex-professora de Física e Biologia Clariza Botelho viu na franquia Mr. Fit um modelo de negócios que se molda às suas necessidades. Ela investiu R$ 12 mil em uma unidade que pode funcionar diretamente da sua casa. Nesse valor estão incluídos um freezer exclusivo e produtos enviados pela rede de alimentação saudável.
Após atingir rápido avanço de início, ela adquiriu outros três aparelhos para armazenar os produtos da marca, o que a caracteriza como multifranqueada, já que cada freezer, no modelo de negócio da Mr. Fit, equivale a uma unidade da franquia.
“Tenho algumas vantagens em ser multifranqueada de uma microfranquia, pois não pago e nem tenho despesas com transporte, além da flexibilidade de horários. Preciso apenas de um espaço pequeno para os freezers e o computador. Assim, posso trabalhar e acompanhar de perto o desenvolvimento do meu filho, por exemplo”, comenta a empreendedora.

Passo maior que a perna
Não dar um passo maior que a perna é a principal dica de especialistas do setor de franchising: abrir uma unidade sem ter a capacidade para tal, seja financeira ou por qualquer outro motivo. “Quando você tem um negócio apenas, principalmente se for microfranqueado, ele depende de você e de mais ninguém. Ao crescer e investir em outras unidades, será necessário contar com a ajuda de colaboradores, o que significa maiores custos. Por isso, é importantíssimo colocar todos os aditivos financeiros que a nova unidade trará, pois a conta pode ficar apertada demais e descontentar o investidor, ao invés de estimulá-lo”, alerta Adriana Auriemo, da ABF.
De acordo com a diretora, também é essencial pensar no fator logístico antes de tomar tal decisão. A distância entre as unidades que o franqueado vai visitar deve ser levada em consideração, pois facilita o controle por parte dele. “Antes de tudo, o franqueado deve estar preparado financeiramente. Depois, ele tem que estar estruturado e adaptado ao negócio. Coisas simples, mas que a minha experiência observando insucessos diz serem relevantes. A distância física parece ser diminuta com o avanço da tecnologia, porém, transporte e logísticas devem estar no topo das preocupações quanto à abertura de novas unidades”, finaliza Adriana.