Mais do que uma dor de cabeça

A enxaqueca afeta cerca de 20% da população e é uma das doenças mais incapacitantes do mundo

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Mais do que uma dor de cabeça

A enxaqueca afeta cerca de 20% da população e é uma das doenças mais incapacitantes do mundo

Alexandre Feldman, clínico geral

Sexta doença mais incapacitante do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a enxaqueca atinge cerca de 20% da população. As mulheres são as mais afetadas: estima-se que de cada quatro enxaquecosos, três sejam do sexo feminino. Crônica e sem cura, ela é causada por um desequilíbrio químico no cérebro provocado por uma série de fatores. A seguir, o clínico geral Alexandre Feldman, referência no assunto e autor do livro Enxaqueca – Só Tem Quem Quer, explica melhor a patologia, seus sintomas e tipos de tratamento.

O que é enxaqueca?
A enxaqueca é uma doença crônica e que tem como sintoma mais dramático a dor de cabeça, por isso, muito gente acha que são sinônimos. Ela é causada por um desequilíbrio químico no cérebro, decorrente de fatores ambientais e comportamentais, hábitos e estilo de vida, e se manifesta ou não mediante pré-disposição genética de cada um.

Pessoas que sofrem com o problema costumam relatar que têm crises depois de comer determinado alimento ou passar por uma situação específica. O que isso significa?
Qualquer coisa pode ser um “gatilho” para a enxaqueca, como menstruação, estresse, alimentos, bebidas, ar-condicionado, ficar muito tempo sem comer, dormir pouco e saídas da rotina. Isso, inclusive, é um dos maiores problemas da doença, mas é preciso ficar claro que os fatores desencadeantes não são a causa da doença.

Por que a incidência é maior nas mulheres?
A razão mais provável é o desequilíbrio hormonal, com o aumento desproporcional do hormônio estrogênio e a diminuição da progesterona no organismo da mulher. O estrogênio possui ação estimulante, e a progesterona, calmante, então, quando o primeiro está em excesso e o segundo em falta, há um efeito hiperestimulante no cérebro. Considerando que a enxaqueca, por sua própria natureza neuroquímica, compreende um estado de hiperatividade no cérebro, a presença de hiperestimulação facilita e piora as dores de cabeça e as crises de enxaqueca.

A dor de cabeça é o sintoma mais clássico do enxaquecoso. Quais são os outros?
Enjôo, vômito, sensibilidade à luz (fotofobia), barulhos (hiperacusia) e cheiros (osmofobia), visão embaçada, tontura e formigamento. Tem gente que também tem diarreia, diurese, alterações da pressão arterial e da temperatura do corpo, sudorese, mudanças de humor, hipersensibilidade no couro cabeludo, fala embaralhada e dificuldade de concentração, entre outros. Os sintomas nem sempre aparecem juntos e mesmo a intensidade da dor de cabeça é bem variável. Frequentemente, ela vai de moderada a severa, mas há crises com pouca ou até nenhuma dor de cabeça.

Qual é a duração e a frequência das crises?
Tipicamente, dura de quatro horas a três dias. A frequência varia muito, podendo ocorrer desde uma única vez na vida até todos os dias.

Quando é preciso procurar um médico?
Quase todo mundo já teve pelo menos uma dor de cabeça na vida. A maioria passa sozinha ou com um analgésico simples. O problema é quando se torna recorrente e intensa, não melhorando tão facilmente e exigindo mais remédios. O ideal, quando isso acontece, é não ficar se automedicando e procurar ajuda médica.

Como é o tratamento?
O mais convencional é com o uso de medicamentos. E existem dois tipos de tratamento: o sintomático, feito quando há sintomas, para que eles desapareçam, e o preventivo, realizado diariamente, mesmo se não estiver em crise, para diminuir a sua frequência.

Qual é o medicamento utilizado?
Apesar de ainda não existir uma droga específica para enxaqueca, ao longo do tempo descobriu-se que alguns remédios, como antidepressivos, anticonvulsivantes, para pressão alta e para o coração, podem ser usados. E uma nova classe de remédios está surgindo, a dos biológicos. Os primeiros foram aprovados no Brasil em fevereiro, mas já têm sido utilizados no exterior há quase dois anos e com ótimos resultados. Também há ótimas intervenções não farmacológicas, como remédios naturais e acupuntura. Junto a isso, é fundamental promover mudanças de hábitos e estilo de vida.

Enxaqueca tem cura?
Para a medicina a doença não tem cura, mas isso não impossibilita que o paciente consiga controlá-la. Como a causa é o desequilíbrio químico no cérebro, e este é influenciado por fatores ambientais e comportamentais, hábitos e estilo de vida, é imprescindível que se promova mudanças pessoais, que devem ser bem orientadas, assimiladas e colocadas em prática para o resto da vida.