Influência: a bola da vez

Consultores e redes de franquias apostam na influência dos "youtubers" para atrair potenciais investidores com dicas e vídeos didáticos, criativos e baratos sobre o franchising

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Influência: a bola da vez

Consultores e redes de franquias apostam na influência dos “youtubers” para atrair potenciais investidores com dicas e vídeos didáticos, criativos e baratos sobre o franchising

É bem provável que você seja um franqueado ou conheça alguém que queira ser, mas boa parte das pessoas que ainda sonham em ter o negócio próprio nem sempre sabem qual segmento escolher, em qual rede investir e nem onde operar. Elas sabem, contudo, que informação para balizar a escolha não falta e agora, além de jornais, revistas, manuais, livros e sites, o crescimento do ambiente virtual trouxe também os youtubers para o franchising. Esses influenciadores digitais têm funcionado, cada vez mais, como canais de ligação entre as franquias e seus potenciais investidores.
Empreendedor – e agora maior youtuber de franquias do País –, o jovem Raphael Mattos percebeu esse movimento e em 2017 decidiu criar um canal sobre franchising na plataforma. “Quando comecei o canal, vi que ninguém gravava vídeos nesse estilo e com esse tema, então resolvi apostar. O objetivo, desde aquela época, era fazer com que as pessoas tivessem acesso às boas informações do universo do empreendedorismo, principalmente sobre as franquias”, afirmou.
Quase três anos após o início do canal, Raphael, que também é CEO da rede de franquias Premiapão, já produziu mais de 150 vídeos que, juntos, atingem a marca de quase três milhões de visualizações. Seu vídeo mais assistido, com quase um milhão de acessos, fala sobre ‘seis franquias baratas a partir de 10 mil reais’. “Esses tipos de vídeos atendem a algumas das dúvidas mais pertinentes de quem está conhecendo o franchising: qual franquia escolher, se a franqueadora é confiável mesmo, de quanto é o investimento e se vale a pena arriscar”, indica o youtuber.
A inspiração para os vídeos, segundo ele, vem de nomes já conhecidos do Marketing Digital como Thiago Nigro (do canal O Primo Rico), Erico Rocha e Conrado Adolpho. Para Raphael, assim como seus colegas famosos, o objetivo do canal é também levar educação financeira às pessoas.

Canal direto
Atualmente próximo dos 100 mil inscritos e com uma audiência qualificada, o canal de Raphael Mattos tem conectado potenciais investidores diretamente às franquias. Ao acessar informações por meio de seus vídeos, empreendedores têm adquirido conhecimento e procurado as marcas de forma mais preparada, o que facilita até o processo de entrada do franqueado à rede.
“No total, meus vídeos já renderam mais de R$ 1 milhão para franquias que endossoo nos vídeos do canal. Grande parte desse valor, inclusive, foi revertido em faturamento direto em vendas que obtive na minha própria franqueadora, a Premiapão”, conta.
Uma das pessoas que assistiu Raphael e decidiu apostar em uma franquia é Alex Alves, franqueado da rede Clube Turismo em Casa Branca, cidade do interior de São Paulo. Empregado como supervisor administrativo e prestes a casar, Alex buscava melhorar os rendimentos do casal e passou a pesquisar sobre o mercado de franquias na internet. Entre uma busca e outra, o então administrador chegou ao canal Raphael Mattos.
“No primeiro vídeo que assisti no canal do Raphael, ele falava sobre rentabilidade, praticidade do negócio e o valor do investimento de algumas franquias, informações bem úteis e interessantes para mim naquele momento. Ao mesmo tempo, passei a imaginar que algumas das informações que estavam ali poderiam funcionar para mim. Passei assistir outros vídeos do canal, pois queria entender melhor o mercado, como seria ter uma franquia e maturar aquela empreitada na minha cabeça”, explicou.
Em setembro do ano passado, Alex abriu a sua primeira franquia. Na visão dele, o conteúdo abordado no canal ajudou a deixá-lo mais seguro quanto à tomada de decisão de abrir ou não um negócio franqueado. Ainda no início da empreitada, ele se mostra feliz com a escolha. “Por enquanto, tudo está saindo como o planejado. Ainda está um pouco cedo, estou na fase de captação de clientes, mas vejo um futuro próspero com o negócio”, estima.

Youtuber empreendedor
Inspirado por canais como de Raphael, Sandro da Silva Alves, criador e mentor do canal Manual de Franquia, hoje próximo dos 1 mil inscritos, já produziu e divulgou mais de 130 vídeos que abordam os mais distintos assuntos e dúvidas em relação ao franchising. Os principais focos do canal, segundo ele, são franqueados e os possíveis investidores em dúvida.
Na sua visão, a dica mais valiosa, e também a mais demandada por assinantes do canal, é deixar o fator financeiro para um segundo plano na hora de decidir em qual franquia e em qual segmento investir. “Mostro para as pessoas que devem procurar conexões com os valores e princípios das marcas, conexões com os empreendedores e as pessoas da franquia, com o propósito do negócio. Quando achar isso, só aí passa a tentar entender as questões financeiras. Se for investir o seu dinheiro para mudar de vida, que faça da maneira correta”, orienta.
Ex-diretor de uma multinacional, Sandro também possui franquias e aproveita sua experiência como empreendedor para transmitir informações valiosas a quem também deseja ter um negócio. Até o final de 2020, ele ainda quer ‘subir’ 200 vídeos em seu canal no YouTube. Ele também divulga dicas e informações na página Manual de Franquia, no Instagram.
“Tenho rotinas definidas para isso e horários nos quais me dedico para as lojas e nos quais me dedico para o canal. Tem funcionado, mas é muito trabalho. Tem que ser muito disciplinado”, admite. Assim como Raphael, ele também detectou empreendedores que acabaram adquirindo franquias em sua audiência.

Números falam por si
Apostar em canais no YouTube não é uma estratégia nova. Porém, deve se tornar cada vez mais comum e logicamente mais lucrativa. Não é necessário ter uma super produtora para oferecer bons conteúdos e conquistar inscritos (seguidores). Equipes como a dos youtubers Raphael Mattos não possuem mais do que três pessoas. E por que eles devem continuar crescendo?
Simples. De acordo com a pesquisa Video Viewers, realizada pela Provokers e encomendada pelo Google, o consumo de vídeos na web cresceu 165% nos últimos cinco anos no Brasil. Para efeito de comparação, a televisão cresceu 25% no mesmo período.
O mesmo estudou mostrou que 9% da população brasileira já não acompanha a programação televisa. Em contrapartida, 95% dos entrevistados disseram assistir vídeos on-line. Ou seja, o brasileiro consome mais conteúdo nesse tipo de plataforma do que na própria tevê.
Para 80% dos participantes da pesquisa, é possível encontrar conteúdos on-line que não são encontrados na grade dos canais de televisão. Não à toa, seis a cada dez pessoas que consomem vídeos buscam conteúdos que ofereçam melhorias para suas carreiras profissionais e financeiras.
Além do aumento do consumo de vídeos on-line, as pessoas estão assistindo produções mais extensas. Segundo a Provokers, em 2019, houve aumento de 70% no tempo de visualização de vídeos no YouTube, em comparação a 2018. A plataforma detém, atualmente, o maior share em quantidade de conteúdos assistidos: 18%, contra 15% das organizações Globo e 7% do Facebook, entre outros.
Já no que diz respeito à real influência dos youtubers, os números também confirmam a confiança da audiência em relação à plataforma. De acordo com o levantamento, 60% dos respondentes consideraram comprar algo após assitirem um vídeo no YouTube. Sobre o descobrimento de novos produtos ou marcas, 90% dos entrevistados afirmaram ter descoberto algo novo por meio do site.
Para Arthur Igreja, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e especialista em tecnologia, inovação e marketing digital, o consumo de vídeos on-line é uma realidade que deve ser notada, pois pode se tornar vital para os negócios. “Muitas pessoas se informam e buscam suas referências em podcasts e sites, outras pelo Instagram e muitos pelo YouTube. Então, a partir do momento em que você se posiciona só em uma rede social o seu alcance estará limitado. Já que o YouTube é um canal tão importante é fundamental ter presença nele”, argumenta.

Cinco dicas para alavancar o seu canal no YouTube

* Ter regularidade e disciplina
* Entender que não é um jogo onde você colhe os resultados com tanta velocidade
* Entender muito a fundo quem é o público-alvo para não fazer propaganda, mas sim entregar o conteúdo que as pessoas estão procurando
* Fazer um bom investimento para para ter boa qualidade gráfica
* Ter o primor pelo conteúdo e entender que é um canal de relacionamento e não de vendas

Fonte: Arthur Igreja, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e especialista em tecnologia, inovação e marketing digital

Nem tudo são flores
Alcançar uma audiência suficiente para gerar resultados, lembra o professor Arthur Igreja, da FGV, não é tão simples. Não basta gravar um vídeo, editar e publicar na plataforma. Tão importante quanto o conteúdo, na avaliação do especialista, é a forma que você divulgará o material.
“Para ampliar a audiência, é importante que o conteúdo seja multiplataforma. Ele pode ser usado de outra maneira no Instagram, por exemplo. Ou pode ter uma chamada interessante para uma lista de e-mails. Para melhorar o SEO e o alcance do vídeo, o conteúdo deve conter as palavras-chaves certas e as hashtags corretas para que se dê otimização de direcionamento. O mesmo vale para impulsionamentos. Resumindo, é importante saber selecionar o público-alvo e formatar o conteúdo para que os algoritmos te levem a uma performance melhor”, orienta.

O olhar do franchising
Mentora da Endeavor e sócia-diretora da consultoria ba}Stockler, Angelina Stockler crê que, com a maior oferta de conteúdos, os leads certamente estão, a cada ano, chegando às franqueadoras mais preparados para investir. No entanto, ela alerta para que não se acredite em qualquer conteúdo e que as redes saibam aproveitar esse novo canal de comunicação com seus potenciais franqueados.
“É caminho sem volta. Mas vejo como uma excelente oportunidade para o setor. Conheço alguns bons canais que falam sobre franchising e passam informações sérias e relevantes. Mas há também outros não tão confiáveis. É importante o empreendedor investigar a fonte bem antes de levar a sério tudo o que vê e ouve”, comenta.
Ainda na avaliação da consultora, o canal é uma ótima oportunidade para as marcas se comunicarem diretamente com seu possível franqueado a um custo acessível. “É necessário apenas entender o perfil do seu prospect alvo para que a linguagem e as informações sejam passadas de modo que encante e o estimule a dar continuidade ao processo”, sugere Stockler.

Canal próprio
Ao analisar estratégias para se aproximar de investidores, a rede de franquias Sóbrancelhas decidiu, ainda em 2015, criar um canal no YouTube para atrair esse público. Batizado de “Luzia Costa Sóbrancelhas” – nome da fundadora da marca –, o conteúdo é apresentado pela própria empreendedora, que fala sobre o que é preciso para se tornar franqueado em sua rede, como é ter uma unidade Sóbrancelhas, além de dicas de empreendorismo e informações sobre o negócio.
“É uma maneira mais atrativa e que, além de gerar valor, também atrai e agrada nossos clientes e futuros investidores. Realmente é uma ótima ferramenta para atrair leads”, salienta. Um dos vídeos produzidos por Luzia, “Franquias de Sucesso – Sóbrancelhas”, tem mais de 40 mil visualizações. O canal, ao todo, tem pouco mais de dez mil inscritos.
Há pouco tempo apostando na estratégia do canal próprio no YouTube, a Gigatron, franquia de tecnologia e sistemas de gestão, também já tem sentido o efeito de seus conteúdos na plataforma. Mesmo com apenas 1,2 mil inscritos, a marca garante que a presença no site de vídeos melhora o relacionamento com clientes, informa e traz oportunidades de negócios.
“Usamos as redes sociais há um bom tempo, porém focamos e montamos um time para gerenciar esse setor e promover essa área recentemente. Os resultados estão sendo animadores. Tivemos um aumento em torno de 20% na geração de leads”, conta o diretor da Gigatron Marcelo Salomão.
Outras redes franqueadoras como Acquazero, Boali e Taki App também apostam na produção de canais próprios no YouTube.