A escola através dos tempos

Especialistas avaliam como foi, é e será a educação no Brasil

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A escola através dos tempos

Especialistas avaliam como foi, é e será a educação no Brasil

Ricardo Chiquito

Lousa, carteiras alinhadas, alunos sentados e professor na frente da sala de aula. Quando se fala em escola, para muita gente, é essa a imagem que (ainda) vem à cabeça. Apesar de tudo isso continuar fazendo parte do cenário educacional mais tradicional, é preciso levar em conta que o mundo está em constante transformação, impactando nos estabelecimentos de ensino e na própria educação.
Historiadores apontam que o processo de ensinar e aprender sempre existiu, no início de forma mais espontânea, com os mais sábios passando seus conhecimentos para os que sabiam menos. Foi só na virada do século 19 para o 20 que a escola se consolidou no Ocidente como uma instituição formal.
“No Brasil, à medida em que a população aumentou nos grandes centros, a escola foi se constituindo como transmissora de saberes, conhecimentos, conteúdos e certos valores da sociedade capitalista. Ela, então, se tornou obrigatória e foi eleita como espaço que transmite e ensina para crianças e jovens no sentido de prepará-los para o futuro”, comenta o assessor pedagógico da Mind Lab, especializada em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias educacionais, Ricardo Chiquito.
Ao longo dos anos, foi dessa forma que se firmou. “Claro que tivemos mudanças, e muitas importantes. As instituições de ensino e a própria educação evoluíram, se desenvolveram, se expandiram, mas ainda há certa permanência”, indica. “De um lado temos escolas com grandes estruturas e aparatos cada vez mais tecnológicos, e do outro as que não têm nem cadeira, lousa e outros elementos básicos para que a atividade pedagógica possa acontecer”, acrescenta o pedagogo.
Para a diretora de Tecnologias Educacionais do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) Maria Amabile Mansutti, o Brasil teve importantes conquistas nas últimas décadas, como a democratização do ensino a partir dos anos 1970, a criação do Ensino Fundamental e, mais recentemente, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
“Apesar disso, a qualidade da educação nacional não tem tido grandes avanços. Ainda sofremos com problemas de aprendizagem e alfabetização e proficiência baixa em áreas fundamentais do conhecimento, como português e matemática. Embora tenhamos melhorado em alguns pontos, ainda temos um longo caminho a percorrer”, pondera a especialista.

Presente e futuro
No mundo atual, cada vez mais interativo e globalizado, a escolas estão novamente passando por transformações, e a tecnologia tem revolucionado as formas de se aprender e o relacionamento entre aluno e professor. “Ao mesmo tempo em que os recursos tecnológicos facilitaram o acesso à informação, colocaram o professor em uma posição diferente da que se estava acostumado. Agora, ele não é mais o detentor de todo o conhecimento, mas sim um mediador”, avalia Maria Amabile.
Ainda segundo ela, esse é um papel importantíssimo, mas levanta uma questão necessária: a da formação. “Muitos desses profissionais, sobretudo os que lecionam em escolas públicas, não estão preparados para essa nova realidade. Então, é imprescindível que haja investimento na sua formação para que eles possam trabalhar de forma efetiva com as inovações.”
A gerente de desenvolvimento e responsável pelo Ensino Médio Técnico do Senac São Paulo ­Melina Sanjar destaca que as escolas de hoje têm passado por grandes mudanças metodológicas. “No Senac, por exemplo, priorizamos a educação com ênfase no desenvolvimento de competências. No nosso curso, o aluno não é obrigado a decorar todas as matérias para a prova. Muito pelo contrário, aqui ele aprende por projetos. Esse é um modelo que faz mais sentido para o mundo atual e que deverá ser ainda mais explorado no futuro.”
Por falar em futuro, os especialistas consultados pela Revista Tutores acreditam que as escolas, daqui para frente, estarão cada vez mais conectadas com a tecnologia, utilizando ferramentas de inteligência artificial e realidade aumentada para se adequarem às exigências da sociedade e até do mercado de trabalho, e olharão mais para o ensino de habilidades cognitivas, sociais, comportamentais e emocionais, não focando apenas nas disciplinas obrigatórias.
“Precisamos de novas diretrizes e legislação, para reinventar a organização e a formação do professor de forma a atender as questões impostas pela contemporaneidade, e priorizar o valor formativo do conhecimento, a fim de desenvolver competências que cada vez mais serão exigidas pela sociedade”, diz Maria Amabile.

Desafios da educação
“Atualmente, as crianças são nativas digitais e é, para nós, um grande desafio fazer com que as aulas curriculares sejam mais interessantes do que os estímulos que muitas crianças já têm em suas casas, mais específicos, na palma das mãos – visual, auditivo e interativo. Os recursos utilizados em nossas aulas devem ter uma linguagem acessível para as crianças, os temas abordados devem ser de forma atualizada e contextualizada. Para muitos profissionais como eu, que ministraram aulas no ‘século passado’ e se mantêm na profissão, percebe-se o quão desafiador é utilizar dos mesmos recursos em um ambiente educacional. O que antigamente estimulava o aluno, hoje não prende mais a sua atenção. Outro grande desafio é a participação ativa das famílias na escola. Antigamente, as festas eram o meio social, onde as famílias se encontravam para divertirem. Hoje, já não as reunimos com tanto entusiasmo. Todos têm muitos compromissos sociais e a escola nem sempre é a prioridade. Precisamos cuidar dessas relações nos dias atuais, para que o papel da escola não passe a ser somente um facilitador de informações via aplicativo, que resume de recados frios através de palavras nas agendas eletrônicas.”
Marielly Lopes Guimarães Galli, diretora do Centro Educacional Curumim, de Uberlândia (MG)

 

Problemas de aprendizagem
“As dificuldades de aprendizagem representam um dos maiores desafios educacionais dos últimos tempos, pois se referem a situações que ocorrem com alunos que não conseguem acompanhar as aulas, e ocorre por diversos motivos como propostas pedagógicas inadequadas, falta de capacitação de professores, falta de acompanhamento das famílias, déficits cognitivos, problemas psicológicos, falta de motivação e outros. O grande desafio da comunidade escolar hoje é saber identificar quais são os alunos que possuem dificuldades, e que não são identificados patologicamente, para que tenham um acompanhamento adequado e as famílias possam ser orientadas. Várias são as possibilidades de trabalho com eles: acessibilidade, planejamento adequado, trabalho com pequenos grupos, currículo flexível, projetos motivadores e que considerem a história de vida dos mesmos, professores mediadores, avaliações diagnósticas e continuas
e outros. Pensando nisso, torna-se relevante ter um olhar afetuoso e acreditar que qualquer pessoa é capaz de aprender desde que tenha apoio.”
Débora Márcia de Amorim, coordenadora pedagógica da Escola Municipal Professor Domingos Pimentel de Ulhôa, de Uberlândia (MG)

 

O que precisa mudar?

O Brasil, apesar do otimismo gerado pelos novos currículos estaduais recriados pela BNCC, a reforma do Ensino Médio e outras mudanças pontuais, não tem conseguido bons resultados nos rankings mundiais que avaliam a educação. Para se ter uma ideia, em um dos mais recentes, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para medir o desempenho em leitura, matemática e ciências, o País ficou entre os 20 piores colocados.
Os resultados do estudo mostraram que mais de dois terços dos alunos brasileiros de 15 anos têm nível de aprendizado em matemática mais baixo do que é considerado “básico”. Em ciências, a nação caiu da 63ª para a 67ª posição em comparação com a edição de 2015 e, em leitura, permaneceu praticamente estagnada nos últimos dez anos.
Para mudar esse quadro, de acordo com a diretora de Tecnologias Educacionais do Cenpec Maria Amabile Mansutti, é preciso se espelhar nos primeiros colocados. “Para eles, a educação é prioridade, faz parte do projeto de país. Aqui não, e essa mentalidade precisa mudar o quanto antes. Na prática, isso implicaria em aporte de recursos financeiros na área e elaboração de novas políticas nacionais.”
A gerente de desenvolvimento do Senac São Paulo Melina Sanjar acrescenta que o Brasil, diferentemente dos melhores posicionados nas avaliações, não aposta nos cursos técnicos. “Eles são vistos como secundários e para as classes mais baixas. Estima-se que apenas 13% dos estudantes brasileiros optem por essa modalidade, enquanto em nações evoluídas, como a Noruega, esse índice chega a 70%.”
Outro ponto, e que é consenso entre os especialistas, é que a educação nacional só evoluirá quando passar a valorizar o professor, e não só do ponto de vista monetário, mas no sentindo de transformar o magistério em uma carreira atrativa. “No Brasil de hoje existe a preocupação de um colapso da profissão da docência porque os jovens não se interessam mais por ela. Para evitar que isso aconteça, é necessário oferecer para esse profissional melhores condições salariais, de segurança e de trabalho”, diz o assessor pedagógico da Mind Lab Ricardo Chiquito.
O especialista destaca ainda que, para melhorar a performance, as escolas brasileiras também devem fortalecer o vínculo com as famílias, de forma que elas se envolvam e façam parte do processo de ensino-aprendizagem. “Sem isso, a nossa educação não vai avançar”, encerra.

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