S.O.S infância

Hospitalização de crianças e adolescentes por doenças mentais e comportamentais aumenta no Brasil

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Hospitalização de crianças e adolescentes por doenças mentais e comportamentais aumenta no Brasil

As internações hospitalares de adolescentes com idade entre 10 e 14 anos, motivadas por doenças mentais e

Ana Maria Costa da Silva Lopes

comportamentais, subiram 107% nos últimos dez anos no Sistema Único de Saúde (SUS), registrando quase 25 mil casos no período. Na faixa etária entre 15 e 19 anos foram mais de 130 mil, sendo quase 14,5 mil só no ano passado. As informações são de um levantamento realizado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), elaborado com base nos dados do Ministério da Saúde.
O documento aponta que a maioria dos casos são provocados por transtornos de humor e devido ao uso de substâncias psicoativas, tais como medicamentos ansiolíticos e sedativos, maconha, canabinoides sintéticos, alucinógenos, inalantes ou solventes, estimulantes e tabaco, e podem estar relacionados à maior prevalência da depressão, considerado o mal do século XXI nessas faixas etárias.
Para a médica Ana Maria Costa da Silva Lopes, membro do Departamento Científico de Desenvolvimento e Comportamento da SBP, esse cenário tem relação direta com o aumento dos fatores de risco: sedentarismo, alto nível de exigência das performances escolar e social, afastamento dos pais, violência velada (negligência, por exemplo) e violência psicológica, entre outros.

Fique de olho: sinais de que algo não vai bem
* Irritabilidade, frustração ou raiva excessivas
* Mudanças rápidas e inesperadas no humor e explosões emocionais
* Dor de estômago, dor de cabeça ou náusea
* Piora no rendimento escolar
* Falta de interesse
* Tristeza e isolamento
* Automutilação

“Está relacionado também à redução de fatores de proteção, como brincadeiras ao ar livre, prática de esportes, convivência familiar, religiosidade e ambiente seguro e tranquilo. Tudo isso, e a concomitância de predisposição familiar e genética, aumentam a incidência do transtorno de humor do tipo depressivo em faixas etárias cada vez mais precoces”, complementa a especialista.

Atenção e prevenção

Gabriela Malzyner

Apesar dos altos números identificados pela SBP, a psicóloga Gabriela Malzyner, professora do curso de Formação em Psicanálise do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo (CEP/SP) e membro efetivo da Clínica de Estudos e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia e Bulimia (Ceppan), pondera que a adolescência, por si só, é um período de muito sofrimento psíquico.
“Além de essa ser uma fase de constante transformação, a sociedade de hoje exige que os adolescentes ­tenham comportamentos que são típicos de faixas etárias mais avançadas, não permitindo que tenham tempo para simplesmente viver a vida, sem contar que essa turma está totalmente imersa no mundo tecnológico, e pouco no mundo real. Tudo isso acaba tendo um impacto psicológico negativo para muitos”, afirma.
A profissional ressalta que nem toda dor psíquica é transtorno, doença: “ela é um sinal de que algo não vai bem e, claro, deve ser cuidada, mas é fundamental fazer a distinção do que precisa efetivamente ser tratado, com medicamentos, e o que simplesmente faz parte da vida”.

Saúde mental dos adolescentes
* As condições de saúde mental são responsáveis por 16% da carga global de doenças e lesões em pessoas com idade entre 10 e 19 anos
* Metade de todas as condições de saúde mental começam aos 14 anos de idade, mas a maioria dos casos não é detectada nem tratada
* Em todo o mundo, a depressão é uma das principais causas de doença e incapacidade entre adolescentes
* O suicídio é a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos
* As consequências de não abordar as condições de saúde mental dos adolescentes se estendem à idade adulta, prejudicando a saúde física e mental e limitando futuras oportunidades
Fonte: Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e Organização Mundial da Saúde (OMS)

A especialista em terapias com crianças e adolescentes e professora da Cognitiva Scientia Valquiria Tricoli comenta que a

Valquiria Tricoli

família e a escola têm o papel de ajudar a construir habilidades para que os mais novos consigam lidar com os desafios cotidianos. “Falando especificamente na escola, é preciso enxergar o estudante como uma pessoa, buscando ficar mais próximo dele e de sua família. Além disso, nesse ambiente, vale trabalhar a reflexão e as habilidades sociais, para que as crianças e os adolescentes as aprendam e saibam colocá-las em prática. Isso pode ser feito por meio de várias atividades, como oficinas, leituras, conversas e trabalhos em grupo.”
A médica da SBP, Ana Maria, complementa que as estratégias de prevenção de transtornos mentais e comportamentais incluem ainda trabalhar o bullying e o estresse tóxico na infância e os cuidados de familiares com depressão, principalmente a materna. “Pediatras, pais e escola devem de ser promotores de uma sociedade com fatores de proteção para a vida psíquica da criança e do adolescente, promovendo uma vida saudável e harmônica”, finaliza.

DICAS PARA UMA BOA SAÚDE
* Diminuir as cobranças e, ao mesmo tempo, impor limites claros
* Dizer não, para que as crianças aprendam a lidar com a frustração
* Incentivar a prática de atividade física não competitiva
* Investir em uma alimentação mais saudável
* Aprender a escutar de forma acolhedora e amorosa, sem críticas e cobranças
* Evitar comentar assuntos trágicos e discutir na presença dos filhos ou alunos
* Promover o uso da tecnologia com moderação
* Não sobrecarregar as crianças com responsabilidades e tarefas excessivas