Mercado disputado

As fintechs chegaram com tudo. Bancos se aproximam dessas startups e geram novas soluções de crédito para as empresas

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Mercado disputado

As fintechs chegaram com tudo. Bancos se aproximam dessas startups e geram novas soluções de crédito para as empresas

Não é novidade para ninguém que o mundo está mudando cada vez mais rápido. Constantemente surgem tecnologias e, com elas, novas formas de interagir e novas possibilidades mercadológicas. Tudo isso tem alterado a maneira como as empresas lidam com o dinheiro, e não só nas operações do dia a dia ou nos investimentos, mas também na tomada de empréstimos.
O setor bancário continua sendo o que mais fatura no mundo. No Brasil, os quatro maiores bancos com ações listadas em bolsa (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander) lucraram, juntos, em 2018,
R$ 69 bilhões, crescimento de 19,88% em relação a 2017 e o maior valor da história, de acordo com a Economatica, empresa de informações financeiras.
Apesar disso, grandes grupos financeiros, como o banco norte-americano Goldman Sachs, acreditam que, em breve, boa parte desse montante será dividido em especial com as fintechs, startups que trabalham para inovar e otimizar serviços do sistema financeiro e prometem mais agilidade e menos burocracia do que os bancos tradicionais.
O relatório Global Fintech Market (2018-2023), da Research And Markets, fornecedora norte-americana de pesquisas de mercado, aponta que essas empresas deverão ter um crescimento médio anual de 22,17% nos próximos anos, movimentando cerca de US$ 305,7 bilhões em 2023.
O documento indica que as soluções de serviços de pagamento terão um grande crescimento no mercado global, com geração de receita de US$ 207,1 bilhões em quatro anos. E entre as responsáveis por isso certamente estarão as fintechs com foco no varejo.
Outro ponto do estudo da Research And Markets é que o Brasil e o México serão os protagonistas de uma lenta emersão da América Latina como uma das regiões proeminentes em termos de desenvolvimento de tecnologia financeira.
Por falar em Brasil, segundo a mais recente versão do Radar FintechLab, elaborado pelo FintechLab – hub para conexão e fomento do ecossistema nacional de fintechs –, no final do primeiro semestre do ano passado o País já contava com 453 startups financeiras em operação, considerando os conceitos de fintechs propriamente dita e plataformas dedicadas à eficiência financeira. Esse número representa um crescimento de 23% em relação a 2017 (369 empresas).

Fintechs e franquias
Por enquanto, o maior público das fintechs são pessoas físicas, sendo que o principal produto utilizado por elas é o cartão de crédito. Porém, aos poucos, elas começam a atrair a atenção de empresários e empreendedores. E o franchising, claro, está no radar delas.
Para se aproximar do setor, inclusive, já tem empresa participando da ABF Franchising Expo 2019 e muitas estão desenvolvendo soluções especiais para as marcas e suas redes. Os esforços já estão dando resultados, pois algumas franquias, como Óticas Carol, O Boticário, Sterna Café, Gendai, China in Box e CNA figuram em suas listas de clientes corporativos.
Como curiosidade, vale destacar que tem até fintech virando franqueadora: a Acqio. Lançada em 2015, ela atua no segmento de pagamentos eletrônicos e conta com mais de 580 unidades espalhadas pelo País.

Fintechs e bancos
Mas como ficam os bancos com o fortalecimento das fintechs? Elas são uma ameaça? Irão substituí-los? Nada disso. O que tem acontecido é uma aproximação entre ambos. “Por enquanto, o volume que as startups financeiras operam é baixíssimo. Ainda assim, já convivemos com elas e não vemos problema algum nisso. Muito pelo contrário, as enxergamos como parceiras”, analisa o diretor do Departamento de Comercialização de Produtos e Serviços do Bradesco Antonio Gualberto Diniz.
Prova disso é que o banco criou o InovaBra, um espaço de coinovação destinado à geração de negócios baseado nas tecnologias disruptivas. Com 22 mil metros quadrados e localizado em São Paulo, ele conta, atualmente, com 200 startups afiliadas, sendo 10% fintechs.
“Esse ecossistema foi desenvolvido para promover a inovação dentro e fora do Bradesco e gerar valor para empresas e sociedade por meio da colaboração entre startups, grandes empresas, consultores, mentores, investidores e tech partners”, acrescenta o executivo.
O Santander é outra instituição que vê as fintechs mais como parceiras do que como ameaças, tanto que acabou de lançar uma, a Pi, plataforma aberta de investimentos que permite aos clientes acesso a produtos de outras instituições financeiras por meio de um canal 100% digital.
“Essas startups têm boas soluções em prestação de serviços, logística e inteligência de dados. Quando se trata de financiamento, para dar suporte ao crescimento das empresas, elas ainda não chegaram neste patamar. Assim, não são exatamente competidoras diretas, mas sim colaboradoras”, pontua o superintendente executivo de Negócios & Empresas do Santander Brasil Alexandre Teixeira.
Para o superintendente nacional de Clientes Corporativos e Negócios Internacionais da Caixa Vicente Reckziegel, o movimento das fintechs veio para ficar e é muito benéfico para o sistema bancário como um todo. “Somos um banco comercial, e atuamos de forma a estimular a economia. Então, quando surge no mercado uma ferramenta que conecta fornecedor de dinheiro com consumidor, enxergamos como algo positivo”, comenta.
O crescimento dessas empresas, inclusive, fez a instituição criar uma diretoria para trabalhar com processos digitais e lançar um projeto-piloto de agências digitais para oferecer mais comodidade e rapidez aos seus clientes. “Estamos promovendo ações que vem ao encontro ao que as fintechs propõem. No momento, elas são mais voltadas às pessoas físicas, mas, em breve, também serão destinadas às pessoas jurídicas”, completa Reckziegel.

O gerente do Ambiente de Negócios com Micro e Pequena Empresa do Banco do Nordeste – principal agente financeiro do Governo Federal para o Nordeste do Brasil e o Norte dos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo – Marcelo Azevedo Teixeira também encara essas startups como algo bom para o mercado financeiro. “Elas nos fizeram acelerar os investimentos em soluções digitais, para facilitar o acesso ao crédito e demais produtos que oferecemos. Esse processo tem acontecido com os bancos de uma forma geral”, avalia.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), na busca por diversificar seus canais de distribuição de crédito, também enxergou nas fintechs boas parceiras. “Estamos em um momento de aproximação e, no ano passado, abrimos uma consulta pública para selecionar projetos de soluções tecnológicas de startups financeiras para fazerem parte do nosso Canal do Desenvolvedor Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPME). A ideia é tê-las como um braço dentro do nosso portal”, conta o chefe de Departamento de Plataformas Digitais da instituição, Ricardo Albano.
Além disso, no ano passado, promoveu o Desafio BNDES Fintechs, concurso que ofereceu R$ 100 mil em prêmios às soluções tecnológicas mais inovadoras voltadas ao mercado financeiro; anunciou uma chamada para seleção de 60 empreendedores ou empresas que participarão de seu programa de desenvolvimento de startups, o BNDES Garagem, e lançou edital para escolha de gestor para o seu centro de inovação, que deverá ser inaugurado em novembro deste ano, no Rio de Janeiro.