Cérebro ativado

O pós-doutor em Ciências da Reabilitação Rafael Silva Pereira fala sobre transtornos da aprendizagem e o lançamento de uma série de livros sobre o tema para a Tutores

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O pós-doutor em Ciências da Reabilitação Rafael Silva Pereira fala sobre transtornos da aprendizagem e o lançamento de uma série de livros sobre o tema para a Tutores

Reconhecer um transtorno de aprendizagem nem sempre é tarefa fácil. Apenas profissionais altamente capacitados são capazes de fazer um diagnóstico preciso e determinar a intervenção mais adequada para cada caso. Mas, assim como os pais, a literatura científica está aí para ajudá-los nisso. E em breve haverá novidades nessa área: a Tutores lança em agosto, durante a sua Convenção anual, uma série de livros sobre essas condições. O projeto está sendo elaborado pelo professor e especialista em transtornos de aprendizagem Rafael Silva Pereira, que nos conta a seguir um pouco do que vem por aí.

Como é essa série de livros?
Foi com enorme satisfação que a Disclinica, a equipe multidisciplinar da qual sou diretor, recebeu esse convite. Para além de ser revelador da confiança no trabalho, é acima de tudo um real manifesto da Tutores com a preocupação na evolução dos alunos que acompanham.

Qual é o objetivo desse material?
Ele permitirá que os profissionais que fazem parte da rede possam levar aos seus alunos uma melhor intervenção. Produzimos cinco manuais utilizando a técnica da neurometria. Ou seja, quando afirmamos que determinado exercício está ativando áreas específicas e necessárias à intervenção, ele de fato está ativando essas áreas. A neurometria é um procedimento que nos permite perceber, como equipamento neurofisológico que é, a área ativada quando o aluno está realizando determinado exercício.

Quais são os temas dos manuais?
Disgrafia, Estimulação em Funções Executivas, Estimulação em Consciência Fonológica para Dislexia, Estimulação em Raciocínio Lógico-Matemático e Teste de Avaliação de Funcionalidade. Todos, exceto o último, têm o objetivo de fazer uma adequada intervenção para alunos com transtornos de aprendizagem e pode também ser aplicado a alunos com dificuldades de aprendizagem. No caso do teste de avaliação, ele permitirá, acima de tudo, obter um perfil de funcionalidade do aluno em várias áreas do conhecimento, possibilitando ao profissional direcionar a intervenção e comparar os resultados antes e depois da mesma.

O que são os transtornos de aprendizagem?
Os transtornos de aprendizagem têm origem neurobiológica e são de caráter permanente, ou seja, vão acompanhar a criança ou o adolescente para o resto da vida. Eles estão relacionados a problemas na escrita, leitura e cálculo.

A pessoa já nasce com o problema?
Ele se percebe durante o desenvolvimento da criança. Normalmente, vai se manifestar no momento da aprendizagem formal da escrita, da leitura e da matemática. A não ser que exista uma lesão durante o desenvolvimento que provoque a dificuldade, nesse caso é um transtorno adquirido.

Quais são os transtornos de aprendizagem?
São vários e estão relacionados à leitura, escrita e ao cálculo. Temos dislexia, disortografia, discalculia e disgrafia, entre outros.

E quanto aos sinais, quais são eles?
Dependem do transtorno. Por exemplo, considerando a discalculia como um transtorno relacionado ao cálculo e ao raciocínio lógico matemático e abstrato, as crianças vão apresentar desde muito cedo dificuldades em abstração e dificuldade com números e cálculos simples. Elas podem trocar 6 por 9, inverter a posição escrita dos números, não conseguir entender os espaços entre os números, ter problemas para fazer cálculo, ler gráficos, memorizar a tabuada…

E no caso da dislexia?
Na dislexia, se a considerarmos como um transtorno relacionado à dificuldade em associar o grafema ao fonema, a dificuldade é na leitura. Essas crianças, desde a educação infantil, podem apresentar atraso no desenvolvimento da linguagem, falar mais tarde que o habitual, não conseguir memorizar rimas, identificar que uma palavra rima com outra…

Esses sinais indicam…
Gostaria de ressalvar que nem todos os sinais configuram um transtorno e que a identificação deste não se faz apenas por “check-list”, no qual se vai verificando ou identificando o que o aluno faz ou não faz. Os sinais são apenas elementos para nos deixar com atenção para o que está acontecendo ou que possa vir a surgir. Quanto mais rápido eles forem identificados, mais rápido se encaminha para avaliação multidisciplinar e se identificam as características da criança tendo em vista uma intervenção eficaz.

Como são feitos os diagnósticos dos transtornos de aprendizagem?
A avaliação é feita, normalmente, por uma equipe multidisciplinar e baseada nas queixas apresentadas pela criança ou o adolescente. Face à queixa apresentada, é delineado o processo de avaliação que nos trará o resultado e o perfil de funcionalidade e daquela criança ou jovem. Perante o resultado, elabora-se um programa adequado de intervenção.

E como é esse programa de intervenção?
É estimular o cérebro para as áreas que não estão funcionais, um treino técnico-psicopedagógico, multissensorial e específico para as características apresentadas. Os exercícios que o aluno realiza devem ter na sua base a ativação das áreas cerebrais importantes e identificadas no diagnóstico como não funcionais. Ainda que possam parecer exercícios pedagógicos, não o são.

Quais profissionais podem ser envolvidos neste processo?
Psicólogo, neuropsicólogo, pedagogo, fonoaudiólogo, oftalmologista, audiologista, psicopedagodo, terapeuta ocupacional, psicomotricista, pediatra ou neuropediatra. Toda uma equipe multidisciplinar, portanto.

Se não for feita uma intervenção adequada, quais as consequências dos transtornos de aprendizagem?
A criança ou o adolescente poderá ter problemas sociais, acadêmicos e emocionais, pois a sociedade, a escola e a família esperam que se saiba ler, escrever e calcular. Emocionalmente, quem tem transtorno de aprendizagem fica mais frágil, se sente incapaz e sua autoestima vai rebaixando, alcançando muitas vezes momentos de depressão.

E as intervenções são realmente efetivas?
Fazendo uma intervenção adequada, conseguimos alto grau de sucesso. Nos transtornos ela tem sempre o objetivo de levar a criança ou jovem a alcançar o máximo de sucesso, alterando os níveis de disfuncionalidade apresentadas. As evidências são flagrantes em termos de evolução.

Como a literatura também pode ajudar os pais nesse processo?
A literatura é importantíssima, especialmente porque os pais se sentem perdidos quando seus filhos apresentam algum problema. Livros sobre transtornos de aprendizagem garantem acesso à informação, ajudando os pais a se conscientizarem e darem um passo à frente na busca por ajuda. Mas é preciso destacar que a maioria dos livros produzidos sobre esse tema ainda não é focada nos pais, tendo uma linguagem pouco familiar, muitas vezes de difícil compreensão. Contudo, a sua existência traz um benefício inquestionável, dado que permite acabar com alguns mitos existentes e com intervenções obsoletas e que não são eficazes. Depois, a existência de livros de orientação para esses pais permite uma relação mais efetiva com a escola e um maior comprometimento.

Rafael Silva Pereira

* Pós-doutor em Ciências da Reabilitação
* Doutor em Ciências da Educação
* Mestre em Didática do Português
* Professor do Fundamental I
* Especialista em Dislexia e Transtornos da Aprendizagem
* Diretor-geral da Disclinica, de Portugal
* Membro do Conselho Científico da Associação Brasileira de Dislexia
* Formador em âmbito nacional e internacional
* Autor de diversas obras de avaliação e intervenção em transtornos
de aprendizagem