Entende tudo, mas não fala

Pouca conhecida no Brasil, a Apraxia da Fala na Infância atinge duas em cada mil crianças nos Estados Unidos

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Entende tudo, mas não fala

Pouca conhecida no Brasil, a Apraxia da Fala na Infância atinge duas em cada mil crianças nos Estados Unidos

Por volta dos três meses, os bebês começam a emitir os primeiros sons, como ah e oh. Um ou dois meses depois, inicia-se o balbucio de algumas sílabas (dá-dá, bú-bú e má-má, por exemplo). Com cerca de nove meses e até um ano, eles formam as primeiras palavras e com dois anos já têm um pequeno vocabulário.
Com a pequena Ana Beatriz, hoje com 7 anos, nada disso aconteceu. “Desde os primeiros meses, ela sempre foi quietinha, não balbuciou e quando completou dois anos ainda não falava nada”, conta a mãe, a internacionalista Fabiana Collavini, de 42 anos.
Nesse período, os pais procuraram um fonoaudiólogo. O tratamento inicial durou cerca de 11 meses, mas não surtiu efeito. Um segundo profissional consultado suspeitou de que ela tivesse Apraxia da Fala na Infância (AFI), diagnóstico que foi confirmado pela terceira especialista, quando a menina tinha dois anos e meio.
Ainda pouco conhecida no Brasil, a AFI, como explica Elisabete Giusti, fonoaudióloga infantil, com especialização em Desenvolvimento da Linguagem e suas Alterações, é um distúrbio motor que afeta a habilidade de produzir e sequenciar os sons da fala. Nos Estados Unidos, ela afeta duas a cada mil pessoas – não há dados referentes ao Brasil.
“A criança sabe o que quer dizer e compreende o que é dito para ela, mas tem dificuldade para falar. O que acontece é que seu cérebro falha ao planejar a sequência de movimentos para produzir os sons que formam sílabas, palavras e frases. É como se, na hora de enviar os comandos do cérebro para os articuladores da fala, houvesse um fio desconectado”, diz Elisabete, que também é consultora técnica da Associação Brasileira de Apraxia de Fala na Infância (Abrapraxia).

Causas da AFI
A Apraxia de Fala na Infância pode ser causada por alteração genética; intercorrência neurológica, como falta de oxigenação no parto e má formação cerebral; e lesão em áreas relacionadas ao processamento motor da fala no cérebro (traumatismo craniano, por exemplo). Também pode ser associada a outro transtorno do neurodesenvolvimento, como síndrome de Down e autismo. Porém, na maioria dos casos, é idiopática, ou seja, sem uma causa específica, definida.
As manifestações desse distúrbio são classificadas como leve, moderada e severa e são percebidas com mais intensidade após os dois anos. Por afetar o desenvolvimento da fala e da comunicação, o profissional indicado para dar o diagnóstico é o fonoaudiólogo, mas desde que ele tenha experiência na área.
Elisabete comenta que o tratamento, que é totalmente personalizado e individual, deve ser iniciado o quanto antes e contar com o envolvimento de toda a família e da escola. Vale destacar que há situações em que se faz necessária uma equipe multidisciplinar, envolvendo pediatra, terapeuta ocupacional e psicólogo, entre outros.
“Na terapia motora da fala utilizamos diversos princípios, entre eles seleção de fonemas e palavras-alvo, prática repetitiva e uso de pistas multissensoriais (visuais, auditivas, cognitivas, táteis etc), para ensinar os movimentos da fala para a criança, tudo de forma lúdica, prazerosa e respeitando seu nível de compreensão”, indica.
Fazendo tratamento há quase cinco anos, Ana Beatriz – que tem um grau severo de AFI – fala diversas palavras e acompanha sua turma na escola em relação ao aprendizado. “Hoje em dia ela consegue se comunicar e isso, para nós, já é um ganho e tanto”, celebra a mãe, que, inclusive, é presidente e fundadora da Abrapraxia.
O resultado e o tempo de terapia variam muito e dependem do grau da AFI. “Isso está relacionado às características pessoais de cada um e da experiência clínica do fonoaudiólogo. Um resultado exato é impossível ser previsto. Nos Estados Unidos, há casos em que a fala se desenvolveu normalmente. Mas em outros casos não, sendo difícil determinar como será a fala quando a pessoa for adulta”, afirma Elisabete.
Apesar de a apraxia ser um distúrbio e necessitar de tratamento, a especialista alerta para o fato de que nem toda criança que tem atraso ou dificuldade de fala tem realmente o problema. Por outro lado, ela pondera que quando a criança apresenta esse quadro os pais não devem logo achar que é só falta de estímulo ou preguiça, pois pode ser, de fato, um transtorno.

Principais características da AFI

  • Pobre repertório de vogais e de consoantes, incluindo as consideradas mais visíveis, como P e M
  • Variabilidade de erros e presença de erros incomuns/idiossincráticos
  • Maior quantidade de erros e dificuldade conforme aumenta o número de sílabas das palavras
  • Dependendo do grau de severidade, a criança pode produzir o som, a sílaba ou a palavra-alvo em um contexto, mas é incapaz de produzir o mesmo alvo com precisão em um contexto diferente
  • Mais dificuldade nas tarefas que precisam de controle voluntário, em comparação com as realizadas de forma automática
  • Dificuldade nas tarefas de diadococinesia, ou seja, para alternar com precisão a repetição das mesmas sequências, como pa/pa/pa, ou de sequências múltiplas, como pa/ta/ka
  • Pobre repertório de vogais e de consoantes, incluindo as consideradas mais visíveis, como P e M
  • Presença de alterações prosódicas, fala acelerada ou monótona, instável, erros de acentuação, déficit na duração dos sons e pausas entre as sílabas
  • Em algum momento, a criança pode demonstrar “procura” ou “esforço” para realizar as posições articulatórias
  • Pode também apresentar dificuldades na sequência de movimentos orais voluntários (apraxia oral)
  • A criança demonstra que fica “perdida”, não sabe como movimentar a boca. Ela tenta falar, mas não consegue
  • Discrepância entre a compreensão e a produção de fala. A criança pode, por exemplo, compreender bem, mas não conseguir produzir a fala

Fonte: Associação Brasileira de Apraxia de Fala na Infância (Abrapraxia)

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