Não entendo

2019 ficará marcado para mim como o período em que percebi definitivamente minhas limitações. Descobri que estou rodeado por muito mais coisas que não entendo do que as que entendo. Por Luciano Pires*

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Não entendo

2019 ficará marcado para mim como o período em que percebi definitivamente minhas limitações. Descobri que estou rodeado por muito mais coisas que não entendo do que as que entendo. E dizer uma coisa dessas numa sociedade onde o que mais tem é gente que entende, é um desafio.
Sim, eu não entendo. E por não entender, me recolho à minha ignorância. Não vou sair por aí falando sobre o que não entendo. E faço isso exatamente no momento em que um monte de gente abre a bocarra e despeja a ignorância pelas redes sociais. E como faz barulho, viu?
Eu assumi um compromisso muito tempo atrás de atuar como um curador. Procurar conteúdos legais de outras pessoas e apresentar para quem não conhece. E também produzir conteúdos reflexivos que possam orientar as pessoas sobre como encarar o mundo em que vivem. E faço isso a partir da janela pela qual vejo o mundo. E paro na minha ignorância.
É de Clarice Lispector esta delicia de texto: Não entendo.
“Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura se ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo…”
Entender que não entende. É essa habilidade que parece que muitos perderam.