Inclusão. O que você disse?

A jornalista Millena Machado troca o trabalho na televisão pelo empreendedorismo e decide se dedicar ao ativismo pela causa da surdez

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Inclusão. O que você disse?

A jornalista Millena Machado troca o trabalho na televisão pelo empreendedorismo e decide se dedicar ao ativismo pela causa da surdez

O Brasil tem cerca de dez milhões de deficientes auditivos. Uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou que, de 2013 a 2015, a surdez ocupou o quarto lugar na lista de doenças com mais impacto na qualidade de vida da população, à frente, por exemplo, da deficiência visual e de problemas de locomoção.
Por isso, a OMS elegeu os cuidados com a audição como uma de suas prioridades para este século, considerando também que mais de 10% da população mundial ficará surda dentro de vinte anos em função do excesso de ruídos nas grandes cidades e da crescente utilização, em altos volumes, de fones de ouvido.
Preocupada com essa questão, a jornalista, apresentadora e palestrante Millena Machado criou, em 2018, a Semana da Acessibilidade Surda (SAS), evento que visa a promover a inclusão social dos surdos e conscientizar e mobilizar a população ouvinte sobre a recorrência da surdez. Na entrevista a seguir, ela conta um pouco mais sobre esse projeto e fala sobre a sua nova fase como empreendedora.

O que a motivou a idealizar a Semana da Acessibilidade Surda (SAS), cuja segunda edição ocorreu em setembro de 2019, em São Paulo?
Idealizei esse evento para incentivar as empresas de comércio e serviços a receberem com acessibilidade os clientes surdos. Não dá para haver inclusão apenas do ponto de vista social e cultural. Para que ela seja de verdade, esses setores precisam abraçar também a deficiência auditiva. E não é o que está acontecendo. Muitas empresas não oferecem acessibilidade para esse consumidor e não estão aptas a recebê-lo.

E como se consegue isso?
A deficiência exige adaptações. No caso da auditiva, isso é mais fácil para as empresas, pois não envolve alterações estruturais, físicas. É preciso, em primeiro lugar, mudar a conduta das pessoas que já trabalham no comércio e com serviços, para que elas aprendam a atender quem tem problema de audição. Também pode ser necessário contratar um intérprete ou utilizar algum aplicativo. O importante é encontrar a melhor forma de se comunicar com esse público.

Fora das empresas, que são o foco da SAS, o que mais pode ser feito?
Temos de estimular as pessoas a preservarem a audição; as companhias a financiarem pesquisas nessa área, e os jovens a serem médicos otorrinolaringologistas, fonoaudiólogos, tecnólogos e desenvolvedores de tecnologia que auxiliem os deficientes auditivos. A inovação deve ser para todo mundo, e não é o que estamos vendo.

Como assim?
Quando a pessoa tem perda auditiva, ela depende de algum intermediário para ajudá-la em diversas situações, como marcar uma simples consulta ou fazer uma compra. Praticamente tudo ela precisa compartilhar com os outros para conseguir resolver. O WhatsApp e ferramentas do tipo até ajudam em alguns casos, mas só para quem aprendeu português. Isso significa que os que se comunicam apenas em libras ficam de fora. A tecnologia não está olhando para essa causa. Hoje, praticamente tudo é por comando de voz, e o deficiente auditivo nem sempre consegue se comunicar dessa forma. Nesse sentido, a tecnologia, ao invés de agregar, está segregando, e isso precisa mudar.

Você tem uma relação pessoal com a deficiência auditiva, não é mesmo?
Sim, uma prima, a Melissa, perdeu a audição ainda bebê, após sequelas de uma meningite. Nós sempre fomos muito próximas, brincamos e estudamos juntas, e eu vi de perto as dificuldades pessoais e profissionais que ela enfrenta. A relação com ela acabou me tornando uma pessoa inclusiva. Quando convivemos de perto com a diversidade e com a adversidade, aprendemos a ter mais consideração com o outro e a ser mais flexíveis e empáticos.

No ano passado você deixou a apresentação do programa Auto Esporte, da TV Globo, e abriu um escritório. Como foi essa mudança?
Depois de oito anos à frente do programa, achei que era hora de sair. Na mesma época senti a necessidade de abrir o meu escritório. Sempre quis empreender e realizar algo do começo ao fim. A SAS veio justamente ao encontro disso. Hoje, meus esforços estão voltados para esse projeto. Eu também apresento eventos, gravo vídeos institucionais, faço locução, escrevo artigos, desenvolvo projetos de comunicação para empresas, realizo workshops de mídia para executivos e ministro palestras.

Uma de suas palestras é voltada exclusivamente para o público feminino. Qual é a temática?
É a Mulheres e Autos. Nela, falo de invenções valiosas feitas por mulheres no passado e que pareciam inadequadas à época, mas que contribuíram diretamente para o sucesso e o aperfeiçoamento do automóvel como usamos hoje. O objetivo é inspirar e encorajar as participantes a seguirem seus sonhos e realizarem seus projetos.

Quais são as suas dicas para as mulheres que desejam ter o próprio negócio?
Reserve tempo e não só dinheiro; planeje momentos na sua agenda diária para pesquisa, aprendizagem, prospecção, prototipagem e troca de ideias; misture equipes, raças, idades, formações, gêneros e, principalmente, seja flexível com o seu próprio sonho, pois às vezes a realização acontece não como se esperava, mas do jeito que tinha de ser, conforme estávamos preparadas para executar.