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Entrevista – O que esperar das eleições 2018? – Revista Franquia & Negócios ABF

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Artigo publicado na Revista Franquia & Negócios ABF  nº 77 (página 28)

O que esperar das eleições 2018?

Depois de anos atípicos, o brasileiro voltará às urnas em 2018 com outra consciência do que é fazer política e como isso se reflete em sua vida

Paulo Gratão

Depois de anos turbulentos na política e economia nacional, o Brasil chega a 2018 cheio de incertezas. Após a Copa do Mundo, que acontece em junho, na Rússia, os olhos do País se voltarão para os pleiteantes ao Palácio do Planalto pela primeira vez depois do impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016.

Os acontecimentos dos últimos anos fizeram com que o brasileiro acrescentasse novos significados à palavra “política”. E nenhum deles é bom.

O Ph.D em Ciência Política, Marcus André Melo, lembra que essa também será a primeira eleição presidencial sem financiamento empresarial, desde 1994. Na avaliação do especialista, isso tende a pesar a favor de grandes coligações, que se beneficiem do fundo partidário, e de quem controla mais máquinas públicas.

Uma notícia mais animadora, no entanto, é que a crise política, que ainda persiste, tem se descolado dos índices econômicos. Isso não quer dizer que um não depende mais do outro, no entanto. Saiba mais sobre isso na entrevista de Melo à revista Franquia & Negócios ABF:

 

Como esses anos mudaram a forma que o brasileiro se relaciona com politica?

Nunca houve tanta demanda por renovação politica, por novas caras. Isso só existiu na redemocratização. Hoje as pessoas não confiam mais, recebem politica de uma maneira negativa. Mas, por outro lado, os detentores de cargos nunca estiveram tão fortalecidos na história. Não há no mundo nenhum fundo partidário que chegue a bilhões, como o nosso. Nunca se colocou tanto dinheiro nas mãos de partidos políticos com taxas inéditas de rejeição. Se a cabeça do eleitor pende para um lado, o dinheiro e o controle pendem para o outro.

 

A economia brasileira finalmente conseguiu se descolar da política? Teremos riscos de novas crises?

É preciso entender do início. Quando a economia se autonomiza, a dimensão política passa a ser fundamental. Até agora, no downgrade do Brasil, tem a ver com um governo muito fraco. O governo Temer tinha como principal elemento de força o controle no Congresso. Ele conseguiu aprovar a Reforma Trabalhista, Teto de Gastos e diversas medidas que têm repercussões econômicas muito grandes. Mas, ao mesmo tempo, com o episodio do Joesley, lá em maio, vulnerabilizou a Presidência de tal maneira que afetou o desenlace da agenda reformista. A Previdência, que estava encaminhada, desandou.

A economia parou de piorar há alguns meses e há sinais de franca recuperação em vários setores. A natureza cíclica do campo econômico é universal, existem ajustes automáticos. Quando o desemprego se torna elevado, como se tornou, reflete de maneira automática na economia e a recuperação é natural. A robustez da recuperação, no entanto, tem a ver com variáveis politicas.

E quando as variáveis devem começar a ficar mais claras?

Temos muitas incertezas, mas nesse primeiro semestre elas se dissiparão, pois teremos as candidaturas definidas. Mesmo que o ex-presidente Lula seja condenado * já se terá ideia do que vai acontecer em eventuais Tribunais Superiores, a aplicabilidade da lei da ficha limpa e eventuais recursos ao Supremo. O cenário do fim de julho é o que aponta para o que vai acontecer. As definições das candidaturas são muito relevantes para saber se haverá disputa nesse campo centro-direita ou não. A mesma coisa vale para a esquerda, que está partindo de forma fragmentada. E mesmo para além dessas formalidades, teremos ideia de quem são esses candidatos. O elemento mais incerto é em que medida uma candidatura que possa se assentar nesse ideal de renovação possa de fato despertar vastas emoções na sociedade brasileira e de forma a compensar resultados muito grandes, mesmo sendo de partidos pequenos e com acesso mínimo ao fundo partidário.

 

Os empresários devem se preocupar com o cenário político em 2018?

A probabilidade de o Lula vir a ser condenado pelo TRF4 é grande. Isso não quer dizer que a chance de ele participar seja zero, mas é pequena. Assumindo-se que isso seja um dado de partida, as chances de uma candidatura que ocupe o espaço de centro-direita ser bem-sucedida são muito grandes. O único fator que poderia colocar esse cenário seria uma competição predatória desse meio campo. Duas ou três competições pelo mesmo campo político. Poderia eventualmente levar a uma candidatura extrema que represente os extremos do espectro político. Uma candidatura extremista de direita ou de esquerda. Só quando o centro político entra em colapso você viabiliza eleitoralmente candidaturas que se encontram nos polos. Aí você viabiliza uma competição entre os extremos, como o Freixo contra o Crivella, no Rio de Janeiro. Essa competição por um meio campo começou a se definir em torno do Geraldo Alckmin (PSDB/SP).

 

Há riscos de salvadores da pátria, ou outsiders, aparecerem nesse momento?

Não está totalmente descartada, fica como uma bala de prata para quem ocupa esse meio político. Salvo entre competição entre Alckmin e Luciano Huck, em que ambos disputem o mesmo eleitorado, um candidato que saia desse campo terá muito mais sucesso do que uma candidatura de direita ou esquerda. O Jair Bolsonaro (PSL/RJ) como candidato antipetista, na ausência do Lula, se enfraqueceria. Ele precisaria migrar um pouco para alcançar um público fora dessa faixa francamente conservadora e que está muito mais à direita do Alckmin. Ele precisaria tentar migrar um pouco em relação ao centro, mas não seria muito bem-sucedido.

Se a gente assume que o Lula está fora, não há muita incerteza. Em termos de politica econômica, as reformas teriam continuidade razoável. O cenário ficaria complicado se inviabilizasse essa candidatura de centro. Esse seria um cenário que não poderíamos descartar. A bala de prata seria o Huck, se a candidatura tivesse sido definida.

 

Quem pode se aproveitar desse sentimento de renovação?

Os falsos outsiders seriam a Marina e o Bolsonaro. Ele tem uma fala marcada pela autenticidade e isso é algo que está presente sempre no discurso populista. Ele diz o que pensa e rejeita “tudo que está aí”. Isso é um valor que em conjunturas de crise política é muito valorizado universalmente, basta ver o Donald Trump. Mesmo quando ele diz bobagem, não perde apoio, porque ele nunca quis parecer inteligente ou elaborado. As imperfeições são parte dessa autenticidade.

 

Há uma nova força política de direita no Brasil, na sua visão?

É a primeira vez que os setores mais conservadores da direita brasileira aparecem. Eles não tinham voz nos últimos 30 anos e o Bolsonaro dá voz a isso. Nos países europeus existem partidos super-nacionalistas que capturam uma boa fatia dos votos, não há nada essencialmente brasileiro nisso. Todas as democracias do mundo têm isso. O Brasil se tornou normal, digamos assim. O Bolsonaro aparece como uma novidade, embora esteja há anos na política No entanto, ele opera dentro de um nicho que dificilmente ultrapassa mais de 20% do eleitorado, que tem o Ensino Fundamental e Médio completo. Esse setor só se identifica com o Bolsonaro no que se refere à segurança publica. Ele não tem nada a dizer em outros setores.

 

Essas eleições devem ser muito diferentes das anteriores, então?

A principal vulnerabilidade em uma candidatura dessa natureza é que essa eleição será a primeira sem financiamento empresarial, desde 1994. Na ausência disso, cria um fundo partidário bilionário e fortalece muito os atuais detentores do Poder Executivo e Legislativo. Quem está no poder tem uma vantagem corporativa muito grande porque tem a máquina.

Juntos, o PSDB e o PMDB terão algo como um bilhão do fundo partidário, além do controle das máquinas, e isso pesará nas eleições. A imagem reversa disso é o que afetaria uma chapa Marina Silva (Rede) e Joaquim Barbosa, por exemplo, mas os partidos são muito pequenos. A Rede tem poucos deputados federais, e não controla máquina alguma. Mas, ao mesmo tempo, podem contar com entusiasmo de muitos setores da população que estão rejeitando “tudo que está aí”. Tem muitos elementos que são difíceis de mensurar, sobretudo o impacto. Se o controle da máquina reforça quem está no poder, a cultura política é muito marcada por um desejo de renovação. São forças que operam em direções contrarias.

Artigo publicado na Revista Franquia & Negócios ABF  nº 77 (página 28)

 

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