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Deixe a vida te levar

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Cortella_divulgacao (3)O jeito com que, aos 60 anos, o educador, escritor e filósofo Mario Sergio Cortella encara a vida deve servir de exemplo para qualquer geração: “quando dela sair, tenho a certeza de que sairei esperneando. Mas, enquanto eu cá estiver, quero que a vida vibre”, diz o autor de mais de uma dezena de livros sobre educação, filosofia e religião.

Em uma de suas obras mais recentes, “Vivemos mais! Vivemos bem? Por uma vida plena” – escrito emparceria com a filósofa e professora Terezinha Azerêdo Rios e lançado pela editora Papirus –, o mestre em Educação considera que “os cuidados dos idosos devem ser para que haja integridade e melhoria da condição geral de vida, e também para coisas que ultrapassem a mera sugestão de prática da ginástica”.

Para Cortella, cada um de nós pode fazer do próprio envelhecimento um processo de crescimento contínuo: não só biológico, mas de aprendizado e convívio, autoconhecimento e compreensão. Nessa entrevista exclusiva, o professor – que também foi Secretário Municipal de Educação de São Paulo no início dos anos 90 – fala sobre a felicidade e aprofunda temas abordados neste e em outros livros de sua coletânea.

Como as pessoas deveriam encarar o envelhecimento?

A vida deve ser entendida como um processo, com possibilidades de turbulências, alegrias, melhorias, agonias, desesperos e esperanças. Portanto, um processo vivo, que sempre pulsa. E se ele pulsa, pulsa em várias direções. Uma pessoa que vive deve ser capaz de dar uma olhada e fazer uma avaliação daquilo que fez de fato.

Deve olhar a vida como um patrimônio e não como um encargo. É aquilo que ela carrega, aquilo que ela tem como patrimônio de vida, algo de que ela se apropriou. Por exemplo: qualquer fase da existência tem dificuldades, turbulências, facilidades. Isso significa, ao contrário do que se imagina, que a idade avançada é muito menos arriscada do que a infância, até do ponto de vista biológico.

No entanto, tem-se uma visão marcada pelo negativo em relação a essa fase e é preciso preparar-se para fazê-lo. A vida, desde o início, pode ser pensada como um processo que tem um fim, que tem finitude. Mas não pode ser inútil.

 

Como devemos fazer isso?

Devemos pensar no envelhecimento como parte de um conjunto, do processo. Não como uma coisa à parte, nem terminal. É uma outra parte, que deve ser vivida nas condições que traz à tona. Nenhuma das fases da vida – a infância, a adolescência, a maturidade – é igual à outra. E o envelhecimento também não será, terá características próprias. Os orientais, por exemplo, entendem a vida como quatro estações e costumam trabalhar cada momento: primavera, verão, outono e inverno.

Quer dizer, podemos ter verões muito bons, mas com suas tormentas, suas tempestades. E também há invernos e outonos. Devemos olhar a vida não como algo que se esgota a cada minuto, nem que seja eterna. As duas posições são de absoluta falta de profundidade. A vida é um processo finito, mas que não pode ser banal, superficial ou fútil.

 

No livro “Vivemos mais! Vivemos bem? Por uma vida plena”, o sr. propõe aos idosos um processo de aprendizado, de convívio e compreensão. De que maneira podemos concretizar essas propostas?

Isso vai variar de acordo com a família com que a pessoa estiver. Esse não é um projeto individual. O cuidado com as pessoas mais idosas, o modo como elas vão viver – se mais ou menos exuberante –, sua vitalidade, tudo dependerá de alguns fatores. Primeiro, de políticas públicas que não deixem no limite do abandono quem estiver em uma fase menos produtiva, do ponto de vista financeiro. Depois, de uma família que olhe aquele ou aquela que está em idade avançada como alguém que tem de ser não apenas protegido como honrado na sua trajetória. Não há um caminho único. Vai depender da família e da comunidade em que o idoso está inserido. Evidentemente, em uma família capaz de valorizar toda a trajetória e a obra do idoso, ele conseguirá, sem dúvida, viver com muito mais honra e dignidade.

 

E como encarar a aposentadoria e a ausência de apoio familiar?

Já escrevi sobre o fato de que, quando alguém se aposenta, em princípio, está em uma fase que quase significa que vai ficar fechado no seu quarto, no seu aposento. Não precisa ser assim. É preciso que se faça, em primeiro lugar, um esforço em relação às políticas públicas, para que não se descuide dessa fase da vida.

Em segundo lugar, as pessoas sem família devem se juntar a amigos e instituições que possam cuidar delas. É importante entender que, isoladamente, nada se conseguirá. Como disse um dia Chico Buarque, traduzindo a peça italiana Saltimbancos: “Um bicho só, é só um bicho”.

Portanto, ficar sozinho não é sinônimo de solidão. Solidão é quando não se tem alternativas. E a primeira alternativa é a família. Se a família falha, é necessário estender o braço. O que não pode é acomodar e, aí, portanto, perecer.

 

Além de cuidar bem da saúde e de praticar exercícios, o que mais o idoso pode fazer para ter uma vida melhor?

Aprimeira coisa é lembrar que uma pessoa que está em idade avançada, que já não tem tantos compromissos obrigatórios, tem tempo para o ócio. E ócio não é vagabundagem. Ócio é a capacidade de escolher o que fazer no tempo livre.

Ora, isso significa que a pessoa poderá escolher, no tempo livre que tem, como se ocupar. Não há uma única forma, uma única trilha para todos. Eu conheço pessoas que ocupam o tempo livre repartindo a própria vida em apoio à família ou a instituições de suporte a pessoas em situação de risco. Outras o fazem ajudando a cuidar de coisas na comunidade à sua volta. Outras procuram estudar, porque, afinal de contas, o estudo, acima de tudo, produz alegria por saber. O estudo não precisa ser pragmático e utilitarista. Quando alguém me diz: “Comecei a estudar depois de velha”, respondo: “Essa fase não existe. Você decidiu estudar depois de nova, porque depois de velha é o término”.

 

Então, há muitas maneiras para ocupar o tempo livre…

O modo de ocupar o tempo livre será variável de acordo com a escolha que a pessoa fizer. O que ela não pode é nada fazer porque isso desvitaliza, tira a capacidade de se manter ocupado. Ócio não é desocupação. Ócio quer dizer escolha livre. Um preso não tem ócio, um desempregado não tem ócio. Ócio é escolher livremente o que fazer, no tempo que se está liberado da obrigatoriedade.

Por isso, a pessoa pode fazer escolhas múltiplas nessa condição. Por exemplo: cada vez mais ocupa o tempo quem fica liberado de algumas obrigações e investe no convívio com os netos, na leitura, na possibilidade de passear e, eventualmente, até de viajar.

O que não pode acontecer é alguém acordar no dia de amanhã e pensar: “meu Deus, nada tenho para fazer”. A frase tem de ser: “que bom, amanhã posso fazer o que quiser e o que puder”. Porque nem tudo que a gente quer a gente pode. Mas aquilo que a gente pode, deve fazer, para não ficar esvaziado ou esvaziada.

 

Que atitudes as pessoas idosas devem adotar diante da vida para atingir o autoconhecimento?

De maneira geral, uma pessoa vai em busca de autoconhecimento quando, ao ler um texto, ao assistir um filme ou ouvir uma música, em vez de simplesmente permitir que passe pelos sentidos, isto é, pela audição, visão, tato, ela degusta aquilo e medita sobre aquilo. Deve pensar: como é que estou sentindo isso, como estou vendo isso, o que é que isso tem a ver com a minha vida, o que isto que estou presenciando me ensina, o que eu faria nessa situação?

Por isso, esse mergulho para dentro, que é o autoconhecimento, não é um fechar-se dentro de si, mas, ao contrário, é abrir-se a partir de si para olhar o que está à nossa volta e ver qual o nosso lugar dentro disso, qual o nosso papel, qual o propósito da nossa presença, o que é preciso mudar naquilo que fazemos.

Isto é, ser capaz de não ter uma vida apenas automática, robótica, aquela que ficaria aguardando o término. E, em vez disso, viver de maneira mais plena enquanto esse término não tem o seu lugar.

 

Que filosofia de vida o seu livro propõe aos idosos?

O livro é uma série de conhecimentos reunidos pela professora Terezinha Azerêdo Rios e por mim, com a nossa experiência e atividade nessa área. Não tem uma filosofia específica. É a junção de várias coisas ligadas ao mundo da arte, da literatura, da poesia, do cinema e da própria filosofia, de maneira que buscamos inspirar as pessoas a perceberem a necessidade de uma vida plena, vida essa que não se esgota apenas na capacidade financeira.

Muita gente supõe que não pode ter as coisas porque não tem recursos financeiros. Claro que a carência financeira é um obstáculo para qualquer fase da vida, mais ainda quando se tem dificuldades de obtenção de recursos. Mas a carência de recursos financeiros não é uma justificativa por completo para a ausência de atividades. É um obstáculo, mas não é intransponível.

 

Há alguma figura pública que, em sua opinião, compreendeu o que é envelhecer?

Eu penso em uma mulher brasileira, que está viva ainda, e é muito especial. É a nossa maior poetisa viva, a Adélia Prado, que mora em Divinópolis (MG), onde nasceu em 1935. Ela tem textos de reflexões magníficas sobre esse tema. Ela já é uma pessoa idosa e trabalhou muito bem essa ideia. Também a Clarice Lispector (1920-1977), em sua obra, abordou o tema. Lygia Fagundes Telles tem um livro altamente recomendável, A noite escura mais eu (1995), que trata dessa temática. Esse livro, aliás, tem o título tirado de um trecho da Clarice Lispector. É um conto belíssimo sobre o fim, sobre uma idosa que é cuidada por uma pessoa, chamado Boa noite, Maria. Eu acho que, das nossas forças brasileiras, essa é uma delas. Há outras pessoas que viveram e que também pensaram sobre isso.

 

Exemplos masculinos?

Entre os homens brasileiros, sem dúvida, Ariano Suassuna, que, até os últimos dias de vida, continuou fazendo uma coisa maravilhosa chamada “aula-espetáculo”. Suassuna foi alguém que um dia, ao escrever o Auto da Compadecida (1955), decidiu que aquilo era só um auto, que não ia compadecer de si mesmo e não ia ficar se lamentando. Acho que ele adotou aquilo que deveria ser o principal lema de uma pessoa idosa e que até está na Bíblia dos cristãos: “em vez de amaldiçoar a escuridão, acenda uma vela”.

Essas são pessoas imbatíveis na sua força vital e, portanto, pessoas que não aceitam de maneira alguma se colocar à margem. Exigem presença e o fazem, numa postura ativa na qual, como dizia o grande Geraldo Vandré, “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Também gosto muito de ouvir Zeca Pagodinho em um churrasco, durante uma conversa, cantando “deixa a vida me levar, vida leva eu”. É uma boa trilha para o lazer, para a alma.

Que conselhos o sr. daria para que as pessoas mantenham a vontade de viver e de continuar sonhando?

Eu traria à tona a frase de um grande homem do século 20, que foi Nobel da Paz, em 1952, chamado Albert Schweitzer (1875-1965). Ele era um jovem professor, de 30 anos, na Suíça, que decidiu que precisava fazer outra coisa. E formou-se em Medicina aos 37 anos, quando foi para o Gabão, na África, onde ficou por 50 anos. Dedicou sua existência a repartir a própria vida. Portanto, foi um homem especial. Quando morreu, seu corpo foi sepultado na Europa, mas o povo africano pediu para que o coração ficasse na África. Ele trabalhou no Gabão até ficar idoso, cuidando das pessoas, usando sua capacidade de tocar órgão e de fazer música, e não saiu dessa rota de possibilidade de ser alguém que tivesse uma força maior. Uma frase dele diz: “a tragédia não é quando um homem morre. A tragédia é aquilo que morre dentro de um homem enquanto ele ainda está vivo”. Essa é uma frase fortíssima, que ajuda a pensar. Ele morreu aos 90 anos. Foi médico, teólogo, filósofo e músico.

Então, para as pessoas, devo dizer que não deve morrer o alento, a expectativa, uma vida combativa, da qual, eu, Cortella, por exemplo, quando dela sair, tenho a certeza de que sairei esperneando. Mas, enquanto eu cá estiver, quero que a vida vibre.

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